domingo, março 26, 2006

Sobrenome projeto

Projeto de limão é uma limonada. Projeto de caminho é uma estrada. Projeto de carinho é cafuné. Projeto de colega é amigo. Projeto de amor é paixão. Projeto de alegria é a felicidade. Projeto de mesada é salário. Projeto de sonho é utopia. Projeto de tristeza é depressão. Projeto de poesia é um soneto. Projeto de música é jazz. Projeto de presente é passado.
Projeto de vida ... é só vivendo.

Mulheres solteiras

Toda mulher solteira é um pouco bruxa, e, isso logo se percebe nessas mandingas praticadas intensamente nos banheiros públicos femininos. O suave polir das armas da sedução, é um ritual de magia intenso, em que se sacramenta o estratégico ajeitar do sutiã, o retoque minucioso do batom e as milhões de formas de se arrumar o fio de cabelo rebelde, que resistiu a mais quente das chapinhas.
É nesse ritual de magia e beleza, que logo se reconhece o poder e a astúcia dessas sábias feiticeiras que investem nos detalhes o sucesso de uma boa conquista.
E quando se pintam, como verdadeiras guerreiras, escondem o rosto da solidão. Porque toda mulher solteira também é uma menina que pede colo.
Toda mulher solteira é uma geladeira com frutas, legumes, verduras, leite desnatado e alguma promessa de vida saudável industrializada. É uma dieta de segunda feira que acaba na terça, quando se decide, com as amigas, que a pizzaria de sempre é o local do encontro para colocar as fofocas do final de semana em dia. Porque toda mulher solteira é cuidado consigo e promessa do que não foi feito. Toda mulher solteira é conselho.
Toda mulher solteira é um sono espaçoso que dorme de um lado da cama para acordar do outro. Toda mulher solteira é uma escova de dentes única na pia, é um sorriso matinal descabelado que logo surge quando se encontra a tampa da privada no lugar certo.
Toda mulher solteira é um coração pendurado no fio de nylon da esperança. Esperando um grande amor que não vem. E criando cores onde não tem.
Porque toda mulher solteira é um amor imaginado. É um poema romântico sem métrica ou destinatário.
Toda mulher solteira é caminho sem mapa. Remédio sem bula. Segredo e não receita.
Toda mulher solteira é uma organização desorganizada, de quem tem tempo demais para si.
De quem tem tempo suficiente para viver. Sem dar nenhuma satisfação.
Toda mulher solteira é a mística da feminilidade experimentada, que se transcreve na busca por si mesma e na riqueza dos detalhes.

segunda-feira, março 13, 2006

Depois (ponto final)

" Um amor assim violento, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento, oceano sem água"
(uma música do Caetano que esqueci o nome, assim como precisei esquecer e seguir)

segunda-feira, março 06, 2006

Um grande amor e um grande time

Nasci corinthiana. Por herança de um avô que mal conheci. Dele só me sobraram as histórias e uma curiosidade louca de ter presenciado um pouquinho da sua existência . Meu pai conta que ele era corinthiano fanático, desses de ir ao estádio, acompanhar o time e tudo mais. E por conta dessas histórias que me acostumei a ouvir, não me lembro da existência de outro time, até meu irmão mais novo nascer. Não se sabe por qual descuido genético, o caçula nasceu são paulino. Desses fanáticos, que driblavam a bola e falavam o nome do zagueiro do tricolor. E não havia São Jorge que o transformasse em corinthiano. O caçula é são paulino.Mas, ainda que o entrave futebolístico se instalasse no coração da minha família, continuei corinthiana, mesmo que fosse só para provocar o menorzinho. Só reconheci paixão no time a primeira vez que vi o Viola marcar um gol e dançar no campo. Achei aquilo o máximo, e, motivo maior não existiria para confirmar minha genética. Aprendi a torcer, só para ver ele dançar no campo a cada gol. Virei assim corinthiana por paixão.Na minha casa mulher não gosta de futebol, é quase uma regra. Minha avó conta que o futebol foi a desgraça que impediu minha tia casar. Segundo ela, a paixão da minha tia pelo Guarani afastou uma série de pretendentes. Uma mulher que gostava de futebol naquela época era uma aberração. Por isso ela não casou, embora continue fiel ao Guarani até os dias de hoje.Mas contrariei as expectativas. Nasci corinthiana fazer o quê?Acontece que por um descuido da paixão, me iludi por um novo moço e por um outro time. É um pouco desse zelo que a feminilidade acaba nos legando. Renunciamos um pouco do nosso espaço para cuidar do coração alheio. E como eu sabia que ele quase enfartava com um jogo do São Paulo, pensei em torcer para o time, numa tentativa frustrada de proteger o meu amado de seus ataques histéricos.Mas a paixão acaba e o amor azeda. O moço foi embora, num dia em que eu me irritei com o seu descaso. Levando sua bandeira e um pedaço do meu coração. Ai veio a tristeza atropelando todas as lembranças. Fiquei mais corinthiana do que nunca! Dessas raivosas que deseja ver o time alheio perder. Só pelo sarcasmo do sentimento que move uma paixão decepada. Sim, levantei bandeiras, tirei a camisa do armário e me redimi. Corinthiana de pele. Não mexam comigo! O amor acabou, a raiva passou, precisava resgatar meu lado corinthiana de pequena.Ontem fui ao estádio, me conciliar com meu time. Pedi perdão silenciosamente por ter pensado em abandoná-lo por uma paixão que passou. E logo que a rede chocou com o gol do Nilmar, vibrei junto e saudei com a fiel o “todo poderoso timão”. Gritei, sofri, vibrei e quase chorei com o gol do empate, marcado ao 2 minutos do final. Foi uma zica. Um balde de água fria... Justo na primeira vez que fui ao estádio!Não importa. Sai do Pacaembú corinthiana novamente. De alma lavada e com o sentimento preenchido. Devota do santo guerreiro e do melhor time do Brasil. E sem medo que as premonições da minha avó se confirmem. Talvez a paixão pelo time afaste a paixão por alguns homens e quem sabe meu fim seja o mesmo da minha tia. Não tem problema. Pois um grande time não se troca por um grande amor. Ainda mais quando seu grande amor também é um grande time.

sexta-feira, março 03, 2006

Como matar um escorpião (ou um escorpiano)

Não sei se a natureza é sábia ou irônica. Mas fato é, que no caso do escorpião esta sabedoria ou ironia desafia a lógica das coisas. Senão vejamos. O escorpião é um bichinho bastante pretencioso. Isto porque, ciente daquela enorme pinça presente em sua bunda, ele usa e abusa do veneno letal e poderoso que tem. Não só quando pica, mas principalmente quando ameaça.
Isto faz com que o bicho se ache imponente diante de todas as coisas. Ninguém mexe com um escorpião... E nada mais óbvio, afinal, quem confiaria em alguém que tem o seu maior trunfo, logo ali no rabo?! Típico de escorpianos, que carregam suas armas, também, nas costas.
Mas esse bicho que de tão pretencioso, ficou vaidoso demais, não soube que a natureza lhe guardou uma boa peça. Que faz, na verdade, uma ótima analogia para os devaneios da vaidade.
Então, esse bichinho poderoso e pretencioso, cheio de si, que chega a ter o ego maior do que pode carregar, prova um pouco do seu veneno logo que vê fogo.
Não se sabe ao certo a explicação, mas para matar um escorpião o que se deve fazer é colocá-lo no meio de uma roda de fogo. Acuado, o bicho não suporta a impotência, coisas típicas de quem tem muita vaidade e ego, e prefere provar do seu veneno letal a se ver literalmente queimado. E morre assim, com a sina de covarde. Como um suicida que não enfrenta os problemas da vida. Como alguém que adora o papel de vítima mas não suporta a idéia das pessoas lhe dizerem isso.
Triste sina que a gente vê por aí, reservada a essas pessoas que têm o ego na lua e acabam muitas vezes sendo bastante covardes.
O bicho do teu signo é o escorpião. O elemento do meu signo é o fogo. Tinhamos armas poderosas em nossas palavras. Por óbvio, um entrave escrito nas estrelas. Uma bela briga financiada pelo zodíaco. Mas eu quis colocar fogo, só para provocar o tamanho do teu ego. Chamei-te vítima, só para sentir sua pretensão. Entendi que seu veneno era letal e mataria qualquer sombra de saudade, de boas lembranças. Mas não imaginei que assistiria a sua covardia, assim, de camarote.

quinta-feira, março 02, 2006

Na frente do mar

Placebo para todas as dores da alma, assim é o mar. Ficar olhando horas a fio o vai e vem de tantas ondas faz repensar a vida, faz acalmar a mente, faz experimentar um pouco de paz. Salgado como a mesma água humana que vem das lágrimas, pensei em todas as coisas ali na frente das ondas. E deixei passar. Desprendi. Deixei levar. Precisava viver. As ondas que vem e vão refletem o movimento absurdo da vida, que as vezes é tão difícil de aceitar. E se encarar humano.
Diante de todas as ondas, daquela imensidão azul, fui pequena como realmente sou. Fui um pedaço de projeto, caminhando por rotas que só eu traço, e desfaço, logo que vem a primeira calmaria. Porque sou inquieta e inconstante diante de toda a dinâmica da vida. Por isso me entrego nos sentidos e sou assim, intensidade.
Mas ali, na frente do mar, sou um projeto pequeno diante do infinito de todo esse azul. Precisava entender o que havia de pequeno em mim. Então deixei ir. Para aceitar, o vazio de tudo aquilo que não tem sentido, mas que ganha beleza e força, assim, na frente do mar.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

In the name of love

Não preciso nem confessar que me desfiz em lágrimas depois de ver o Bono tocar “In the name of love (Pride)” e finalizar, ali no telão, com a Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Uma ironia, um tapa na cara, um orgasmo múltiplo de sinapse após um estupro craniano, ou ainda, o que porcamente se descreveria como algo que “até arrepia”. Porque as palavras sempre são insuficientes para descrever um sentimento. Chorei. Chorei pela verdade bruta que escancara aquilo que nós temos de demasiado humano: orgulho. Quantas atrocidades serão justificadas em nome do amor ? Essas atrocidades públicas e particulares que acontecem a todo momento. Bono está certo. Escreveremos leis, convenções, tratados de paz, inventaremos direitos, conceberemos garantias... Mas justificaremos, ainda sim, toda essa barbárie organizada, assistida passivamente e aplacada na nossa impotência, em nome do amor. Quantas crianças serão mutiladas física ou psicologicamente, terão o futuro confiscado, e viverão no silêncio que sobrevem a dor? Essas crianças que andam pelos morros, vestidas de soldados de uma guerra civil explicita, mas que ninguém vê. Essas crianças que páram os sinais das grandes avenidas, sinalizando a triste multiplicação da miséria que continua num futuro sem explicação, sem projetos. Essas crianças tão cheias de direitos, acolhidas em um berço de espinhos chamado FEBEM. Essas crianças que conheceram muito cedo o preço de não poder brincar.Problema que o direito não resolve, porque esse amor, em que todos nós nos justificamos, não será nunca institucionalizado.Em nome do amor, assinamos nosso orgulho, assim, na terceira pessoa, para não dizer que é com a gente, para não ver aquilo que não se quer ver. E quando se vê, tem alguém logo ali, promovendo a miséria do mundo, em meio a luzes muito caras, gritando em boa voz, tudo aquilo que se faz em nome do amor.Obrigada, Sr. Bono.

sábado, fevereiro 18, 2006

Amigos

É quase um céu cheio de estrelas onde não importam as noites nubladas, porque quando se vê, é quase como se sempre estivessem ali. E não importa quanto o tempo passe ou as despedidas. O reencontro é sempre como se fosse ontem... Então deixa ir. Porque o melhor é sempre ver voltar. E ainda que se tenha mudado tanto, nada mudou, no mesmo abraço. E na mesma cerveja, em que agente divide um pouco da vida. São momentos raros, que preenchem as melhores lembranças. Na mesma caixa de bombons, divida justamente, com algumas lágrimas, daquilo que um dia machucou. São os melhores ombros, quando o mundo fica dificil demais.Pesado demais. São um céu de estrelas, que ainda que não se veja em noites nubladas, nos iluminam e nos guiam. Para respirar fundo e poder ser aquilo que a gente realmente é. E sempre raros... seletos e raros.

sábado, fevereiro 11, 2006

Band Aid

"Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração"

(Elis regina- Como nossos pais)

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Quem tem medo do fórum?

Não faz tanto tempo assim quando me dei conta de que nada seria tão dificil na minha vida quanto compreender um fórum. Foi lá que tive todas as minhas crises jurídicas de forma mais veemente. Foi lá, pela primeira vez, que a questão que percorre o íntimo do meu ser, se manifestou de forma cáustica, acidental e expressa: porque diabos você foi fazer direito?!Já chorei no fórum, já briguei no cartório do fórum, aprendi a odiar a magistratura no fórum, ganhei imensas e doloridas bolhas no pé andando pelo fórum. E aprendi, da forma mais lúdica possível, o que significa o verbete "asco" logo que entrei, pela primeira vez no fórum. Foi um conceito logo compreendido, quando aquele cartorário gordo, mal humorado e seboso perguntou : "o que você quer doutorinha?!". Engoli a seco. Eram tantos sapos que, no fórum, meu estômago já virou brejo.No final do segunda ano da faculdade, quando iniciei a minha árdua trilha como estagiária, logo entendi que o fórum seria um campo de batalhas e, aos poucos, teria que aprender onde é que ficavam as trincheiras daquele lugar . E apanhei viu... e como!Me lembro que no segundo ano, tudo aquilo parecia um livro de Kafka ao vivo. Coisa que só compreendi, um ano depois quando li "O processo". Eu ia para lá saber do processo e quanto mais procurava saber, menos eu entendia. Maldita hora que fui ser mexeriqueira e aprendi que no fórum as poucas palavras sempre compensam mais.Foi a primeira lição. Com o tempo e os ensinamentos de processo civil, entendi que quanto mais objetivo o fórum for, menos dolorido ele é. Isto significa ir atrás do que você quer e ignorar as pequenas vicissitudes que habitam aquele lugar, quais sejam, os gracejos infelizes de advogados metidos a sabichões, cartorários que pesem toneladas ou ainda juizes que precisam de uma lei da boa educação para entender que ela não é só uma ficção jurídica. Não é fácil, mas é compensador. Saber o que se passa no processo e requisitar informações profissionalmente é a melhor trincheira dentro desse campo de batalha. Ajuda a sair com elegância de todos os obstáculos já citados, bem como, acaba por cativar os minutos do relógio, que costumam render mais quando não se preocupa com o inútil.Outra boa lição foi usar tênis para caminhar por lá. Nada mais "old fashion" e libertador do que vestir o bom e amigo par de tênis junto ao seu mais belo terninho. Estagiário é quase um atleta e nada mais ridículo do que andar fantasiado o dia inteiro a troco de um salário de merda e algumas bolhas no pé. Abaixo a ditadura da fantasia das roupas sociais! Havaianas no fórum...Afinal, o elevador tem grande probabilidade de quebrar e o número de bolhas duplica se você tiver que subir as escadas a pé.As lições dentro do fórum sempre foram as mais difíceis. Mas foram também aquelas que me colocaram a frente da profissão e me deram coragem e esperança de reinventá-la.As desilusões ali foram todas, mas a cada dia sobrevivido, acredito que fiquei um pouco mais forte, um pouco menos piegas, um pouco menos poeta, um pouco mais real. Amadureci e envelheci anos naquele lugar. Mandei a justiça a merda, fiz discursos imensos, ainda que no intimo, sobre toda a morosidade do judiciário.Foi triste, mas foi real.E para todas as desilusões, sempre resta o conforto de que "viver é melhor que sonhar".Quem tem medo do fórum? Só quem tem medo de encarar, que aquela realidade de justiça, é um entrave e uma batalha para nossos mais profundos ideais de justiça e para a realidade da nossa profissão.Tem medo de fórum quem busca a justiça nos livros e se esquece de que ela esta bem ali, entruncada num amontoado de processos, empilhada neste insalubre habitat chamado fórum, esperando um pouco mais de vontade e de profissionalismo de todos aqueles que por ali passam, diariamente.

terça-feira, janeiro 31, 2006

São Paulo

Essa cidade vai te ensinar muito cedo que, por aqui, nada é de graça. E vai te ensinar o preço de viver sem ser de graça, que custa um pouco desse suor agonizante de quem tem pressa, de quem precisa vencer. E vai te fazer crescer e aprender, com essa dinâmica atônita e fugaz. Você vai ficar um pouco menos cru. Nessa cidade, se aprende logo no primeiro olhar, que a vida é dura, para quem nada tem. E de toda desigualdade, que fica em cada esquina, você vai levar um olhar mais áspero e indiferente, que de repente, se desfaz na poesia que acende junto a tantas luzes. Em meio a tantos prédios. Que vão lhe ensinar a ser pequeno. Ou ainda do tamanho que você realmente tem. Essa cidade vai te ensinar como ninguém a ser do tamanho dos seus sonhos. E, aos poucos, em meio ao caos instalado por aqui, você vai aprender a amá-la, incondicionalmente, com velocidade de seu trânsito estático.Vai conviver com o luxo e o lixo. Vai celebrar a cultura e a aventura de morar em um lugar, de tantos lugares. Um mundo com tantos mundos. Que se subverte em avenidas largas e no som estridente do metrô chegando. E nesse cinza de tantos tons, que doam chuvas e dias nublados, você vai entender que ao anoitecer, todas essas luzes e torres substituem as estrelas que nunca vem. E você vai aprender amar São Paulo, incondicionalmente.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Aquilo que incomoda por dentro

Acordei. Pensei duas vezes no que faria. Tinha centenas de estratégias para os minutos passarem rápido. Mas a preguiça era tanta que a forma mais fácil, de acelerar o relógio do tempo, era virar para o lado e dormir mais um pouco. Acordar tarde, como toda pessoa que precisa de férias poderia fazer. Cultuar meu lado inútil, esquecendo na insensatez o terrível significado dessa quase doença: improdutividade. Santa improdutividade! Rolar na cama. Ver o tempo passar e não ter nenhuma conclusão sobre o que é, o que pode ser ou o que será. Mas levantei. Levantei para correr . É minha maneira lúdica de escorrer no mesmo suor aquilo que incomoda.Fiz meu almoço, que queimou. Perdi a fome. Coloquei uma música triste no ônibus e procurei um ponto bonito na paisagem. Essa mesma paisagem que passeia pelos meus olhos diariamente.Solidão foi inevitável. Um pouco de melancolia, que marejava os pequenos olhos. Sem entender muito essa condição de as vezes ter tanto e se sentir sem nada, segui.A minha tristeza é a minha admiração nas pequenas coisas da vida. Me apego aos detalhes e depois que as coisas vão é difícil transformá-los em lembrança. A saudade sempre fica nessas pequenas coisas. Nos menores trejeitos do olhar de uma pessoa. No timbre da voz. Que não ecoa nessa realidade vazia. O que eu tenho agora senão saudades? Saudades do que foi, ou saudades do que não vai voltar. E me apego a outras pequenas coisas então. Como a paisagem diária do ônibus. Que um dia também sentirei saudades. Nessa eterna saga de viver e deixar viver. Para depois ir.Me entrego na ausência de você, que habita um micro cosmo do meu dia. E sinto saudades do seu jeito.É aquilo que incomoda por dentro. E não sei dizer.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Sem razões ao amanhecer

Tudo bem, eu confesso: foi uma crise, ou melhor, uma tormenta de pensamentos mal humorados no ínicio da manhã. Mas quem não acordaria assim se não estivesse amarrotado no ônibus? As vezes essa situação me irrita profundamente. Porque tenho o azar de andar com papéis para cima e para baixo e sempre, mas sempre mesmo, alguém me abalroa... Sim, porque não é uma simples trombada ou um empurrão que se ganha as 8:30 da manhã. É um literal, visceral e inoportuno abalroamento. Isso sem contar esses sapatos que a profissão me exige, que costumam ser um pneu careca em dia de chuva. Definitivamente, é um abalroamento matinal traumático.
Olhei tantos carros pela janela, mas não vi o meu. Porque não tinha. Mas as janelas comportam boas inspirações. É bom ver São Paulo amanhecendo apressada.
Olhei o ônibus lotado, olhei os carros vazios... Isso sim é uma incógnita. Porque raios os carros que cabem 5 pessoas, levam somente uma para o trabalho?
E aquela fiiiiiiiiiillllllllllllllllaaaaaaaaaaaaaaaaaa que não acaba mais, combinada ao asfalto que timidamente começava a ferver.
Abarrotada e abalroada no ônibus, então, penso... "ainda vou perder muita vida no meio desse trânsito". Talvez seja o preço de tanta individualidade. Ou talvez, estar ali cultuando o meu próprio individualismo, conduzindo meu EU e somente EU, quando até cabia um NÓS, seria assim o santo remédio que me livraria dos abalroamentos individuais.
E não praguejei mais os motoristas que se tornavam maiores do que eram e levavam a si próprios em seus carros que comportavam mais pessoas.
Mas entristeci, ao notificar minha inquieta consciência, que nada vai mudar e todos nós perderemos um pouco de nossas vidas, irritados no trânsito, todos os dias, ao amanhecer.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Futilidades

Eu não acompanho o Big Brother, não sei o que está acontecendo na novela, não entendo de cremes de cabelo e nem de tipos de celulite, nunca ouvi um psytrance, não insiro mais do que quatro "tipo" em uma frase... Tipo eu, tipo tu, tipo eles...Não assinei a "Caras" desse mês e pior, nem consegui ler ela na sala de espera do dentista...Não sei quem casou, não sei quem separou, nem tampouco quem engravidou...Não me ligo nas cores do esmalte e não entendo de futebol. Não coloquei silicone, não finjo orgasmo, não sei quantos centímetros são necessários para encontrar um verdadeiro objeto sexual.Não fiz escova definitiva. Não entendo de marcas, não entendo de preços e não fiz um altar para a minha própria bunda... Sequer coloquei a na apólice do seguro!
Não sei cantar chiclete. Não vou à micaretas.
Não cultuo sapatos e nem bolsas.
Caramba! Eu sou fútil mesmo.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Feliz era minha avó...

Feliz era a minha avó que pegava na mão e sabia que estava namorando. Quando beijou pela primeira vez, era sinal de amor. E, finalmente, quando foi para cama com o fulano, tinha se convencido de que poderia se entregar sem pensar no que "ele iria achar"...
As vezes penso que essa liberdade feminina contemporânea devia vir com manual, afinal nesses tempos onde os minutos significam tanto, as vezes as coisas perdem o sentido. Como a conquista por exemplo...
Amar se aprende amando e isso não é coisa só pra poeta.
Sem falsos moralismos, também fiz as coisas que as "mulheres modernas" fazem e depois entrei em verdadeiros marasmos existenciais. Por isso repito: amar se aprende amando e todo aprendizado precisa de tempo. Um tempo que se sobressai aos segundos...
E por isso feliz era minha avó. Que provavelmente esperou o tempo acontecer e não acreditou que em três meses se construia um grande amor. Não acreditou que aquele fulaninho que ela conheceu numa balada, amigo do amigo e coisa e tal, era um projeto de grande amor e ficou ali, acreditando em tantas palavras.
Minha avó, certamente depois de ter se entregado, tinha um relacionamento com atitudes um tanto mais sólidas, ainda que ditadas por dogmas sociais. E se um dia acabou, ela não pode se auto julgar perguntando se havia feito certo ou errado.
Feliz era a minha avó que não acreditou naquele otário, que entrou na sua casa e na sua vida, disse que te amava, mas não pode ficar. Porque ele sempre ia.
Agora fica ai, procurando entender todos os porquês.
Bem feito. Quem sabe da proxima vez tu não se guia pelos sinais alheios e compreende que amar se aprende amando e deixa o tempo acontecer. Sem erros ou acertos.
E quando doer, deixa doer tranquilamente e não se entrega a correria do dia para ver tudo passar.
Há quem endurecer sem perder a ternura.
Porém, feliz era minha avó...

sábado, janeiro 14, 2006

Dançar

É tanto movimento que não dá para explicar, a leveza que me invade numa noite de lua cheia. Gosto de sentir meu corpo girando sobre as pernas, como se eu tivesse apenas um umbigo. Sou leve assim... com todas as gotas de suor! Eu não quero parar de rodar, por todo esse salão, sou passos e braços e pernas em um movimento que é um sentimento do que é inquieto e flutuante. Não tire a música porque hoje eu quero cansar. Hoje eu quero dançar. Dormir em estado de calamidade pública, em nome de toda a fadiga das minhas pernas. Hoje quando eu fechar os olhos, eu quero estar exausta de tanto rodar... é meu jeito de esquecer, de embriagar e de sentir viver. De novo.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Triste

A solidão comporta o vagar dos passos. Em ir e vir do trabalho, sem se encontrar. Não entendo o que a vida me diz. Só ando para lá e para cá. Estou exausta de sentir. Estou exausta da minha verve em viver. Do tamanho dos meus sonhos. Porque raios eu fiquei assim? Mais quixote do que gente. Um coração partido, que vaga no meio da avenida paulista. Sem respostas. São todas questões... eu estou cansada e triste...

sábado, janeiro 07, 2006

Sobre os cacos

Levantei. Para juntar os cacos, separar os pronomes: o eu, o tu, o nós. Tive que jogar certas coisas. Guardar os bons momentos em um lugar escondido, qualquer. Na tentativa de escapar da saudade e deixar que tudo se torne lembrança. Havia muita coisa estilhaçada, muita dor ali parada e uma vontade imensa de correr, deixar tudo onde estava, ir para vida, ou para um bar qualquer, eu precisava dançar... Dançar a vida! Viver todos os minutos da vida e não deixar doer. Foi inevitável... No primeiro jazz e já vieram milhões de lágrimas. Que ali só podiam lavar a alma. E que feridas o amor não deixa, assim quando não dá certo? Eram tempos de doer... queria correr para qualquer lugar e para lugar nenhum. Queria avançar os minutos do relógio para bem longe dali. Queria ir... somente ir, sabe se lá para qual lugar...Queria saber o que fazer, com esses cacos, agora...

sábado, dezembro 31, 2005

Feliz ano novo

Um dia é muito pouco para se dizer sobre um ano. Um dia é muito pouco para se planejar um ano inteiro. Projetar é fácil, viver o projeto é que não é tão fácil assim...Reservo o dia para o dia. Que venha o ano. Sem grandes pensamentos, com todos os movimentos. Feliz ano novo! Te vejo em 2006!

terça-feira, dezembro 27, 2005

Subjetivo

Escrevo, praticamente aquilo que não se escreve. Cabeça vazia: casa do diabo! Tenho todo o tempo do mundo, quando não queria tê-lo. Minha cabeça roda e volta ao mesmo lugar. Queria ter uma exclamação, um ponto final ou qualquer coisa que se defina. Tenho uma vírgula, reticencias, ou qualquer outra coisa do gênero. Indefinido, como não poderia ser... Basta ter tempo, que as coisas tornam-se indefinidas como não poderiam ser. Preciso ir ler um livro, e deixar que se explodam as minas subterrâneas que habitam meu coração... Subjetivamente explodam-se.