(“Eu, às vezes fico a pensar/Em outra vida ou lugar/ Estou cansado demais/ Eu não tenho tempo de ter/ Nem tempo livre de ser/ De nada ter que fazer/ É quando eu me encontro perdido nas coisas que eu criei/ E eu não sei/ Eu não vejo além da fumaça/ O amor e as coisas livres, coloridas/ Nada poluídas/ Eu acordo pra trabalhar/ Eu durmo pra trabalhar/ Eu corro pra trabalhar” - Capitão da Indústria – Os Paralamas do Sucesso)
Pela janela do avião eu observava as asas rasgarem o céu com violência, chegando quase a tocar os prédios. Os prédios. São tantos que chego a pensar que brotam sem razão, por alguma estranha epidemia. São Paulo é uma cidade doente. Doente de ansiedade. Por isso precisa antecipar o chão. Por isso precisa ter um céu tão apertado.
Mas eu queria espaço. Espaço para voar. Voar em um céu, que fosse ao menos de verdade.
Então, enquanto as asas do avião rasgavam o céu com violência, na mesma violência eu sentia rasgar em mim uma vontade estrangeira de não querer mais voltar. Meus sonhos com a cidade que tanto me deu sonhos, agora se transformavam em ilusão. Estáticos, alguns desses sonhos adormeciam em seu trânsito paralisado. Outros, agora doentes, enlouqueciam na irracionalidade dos meus dias cinzas. São Paulo não me cabia mais, apesar de sua imensidão compactada.
Mas eu amei essa cidade. Um dia cheguei a me casar com ela. E com vontade de resgatar a paixão dos primeiros dias, caminhei pela Avenida Paulista, na ânsia de sentir aquele familiar impulso. Impulso de sonhar com a cidade grande. Impulso de me encantar com as suas possibilidades. Mas não senti nada. Exceto a apatia de quem não distingue mais o luxo do lixo e tudo se mistura. Sem razão. Sem sentido. Caminhei horas sem sentido. Feliz porque a Avenida Paulista é apenas uma reta. Então eu podia seguir em linha reta, quando eu já era apenas curvas. Tortas. Ridiculamente tortas. Estupidamente tortas.
São Paulo é uma cidade estúpida. Como o flanelinha que te cobra 10 reais para “olhar” seu carro. São Paulo é uma cidade grosseira, como a buzina que estoura lancinante pelos míseros 4 segundos que você parou diante de um sinal verde. São Paulo é uma cidade feia como as mulheres esquálidas e plastificadas que transitam pelo Jardins.
São Paulo é uma ilusão e isso tudo não me cabia mais.
E naquela noite eu dormi triste e com as janelas abertas, olhando as luzes insones, esperando encontrar um outro lugar.
Naquela noite eu me senti como quem dorme com um homem que não se ama mais.
Domingo, Novembro 22, 2009
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Sr. Geraldo - O vibrador
Quando ele se aproximou, meu nariz estava fixo em algum capítulo do livro que havia escolhido para as minhas férias. Por isso não lhe dei muita atenção. No entanto, tão logo ele se sentou, retirou dos bolsos um aparelho de MP3, que automaticamente me fez desviar o olhar.
Tratava-se de um simpático senhor, de aproximadamente setenta e poucos anos, com os cabelos bem brancos e um olhar azul bem profundo. Vestia um colete de fotógrafo, uma mochila com uma pequena garrafa de água e ao perceber que meu olhar se desviou de curiosidade, me lançou logo um sorriso largo:
- Você é de São Paulo mesmo?
Era a primeira vez em que viajava completamente sozinha e minha prudência me recomendava não falar com estranhos. Mas se tratando de um velhinho portando um MP3 e me sorrindo de modo tão simpático, não julguei que corria qualquer perigo. Respondi-lhe então fechando o meu livro:
- Nasci no interior, mas estou aqui há oito anos.
A minha travessão não dava início apenas a uma resposta, mas principalmente, começava uma longa conversa que se prolongaria por mais de oito horas, até a chegada ao meu destino.
Sr. Geraldo, como se chamava, era uma espécie de Forrest Gump do ônibus. Um incrível contador de histórias.
Ao longo da viagem, me contou praticamente sua vida inteira que hoje se resumia a uma espécie de revezamento de avós, que realizava junto da esposa, para auxiliar a filha que tinha lhe dado mais um neto.
Professor, advogado, ex-militante do movimento estudantil, machucado com o Brasil atual, idealista além da idade, Sr. Geraldo era uma figura e tanto. Um livro aberto e vivo, que fazia do meu livro escolhido para a viagem, apenas um apoio para as mãos.
- O Senhor parece mesmo gostar de dar aulas.
- Eu? Não. Eu odeio...
- Jura? Mas como assim?
- Sim, odeio... Nas escolas falta estrutura, os alunos são bem mal educados e pouco dedicados, é muito difícil ensinar.
- Então porque você insiste?
- Ahhh... Porque eu sou um vibrador!
Ao me dizer aquela frase, sem dar qualquer conotação pejorativa à palavra “vibrador”, o Senhor Geraldo me provocou uma enorme gargalhada.
- Mas o que é um vibrador? – Eu perguntei.
- Vibrador, Helga, é alguém que vibra com a vida. Eu sou assim... Vibro com a vida.
Senhor Geraldo desceu na rodoviária de Itabirito- Minas Gerais, deixando no meu dicionário um novo significado para a palavra “vibrador”.
Meses depois, quando escutava o discurso do meu chefe fomentando a minha demissão, poucas palavras faziam sentido. Até porque discursos desse tipo se resumem a uma única frase “vou foder sua vida, mas vai ser melhor para você”. Por isso nunca entendo a necessidade de demissões serem tão detalhadas, infestadas de meias-verdades, inundadas de tantas palavras.
Tantas palavras que sequer eu ouvia. A cara do meu chefe impassível era apenas mais um detalhe diante do abismo. Pensava como nunca em Seu Geraldo. Pensava o quão necessário era ter sua nova palavra, naquele momento, no meu curto e limitado dicionário.
Tratava-se de um simpático senhor, de aproximadamente setenta e poucos anos, com os cabelos bem brancos e um olhar azul bem profundo. Vestia um colete de fotógrafo, uma mochila com uma pequena garrafa de água e ao perceber que meu olhar se desviou de curiosidade, me lançou logo um sorriso largo:
- Você é de São Paulo mesmo?
Era a primeira vez em que viajava completamente sozinha e minha prudência me recomendava não falar com estranhos. Mas se tratando de um velhinho portando um MP3 e me sorrindo de modo tão simpático, não julguei que corria qualquer perigo. Respondi-lhe então fechando o meu livro:
- Nasci no interior, mas estou aqui há oito anos.
A minha travessão não dava início apenas a uma resposta, mas principalmente, começava uma longa conversa que se prolongaria por mais de oito horas, até a chegada ao meu destino.
Sr. Geraldo, como se chamava, era uma espécie de Forrest Gump do ônibus. Um incrível contador de histórias.
Ao longo da viagem, me contou praticamente sua vida inteira que hoje se resumia a uma espécie de revezamento de avós, que realizava junto da esposa, para auxiliar a filha que tinha lhe dado mais um neto.
Professor, advogado, ex-militante do movimento estudantil, machucado com o Brasil atual, idealista além da idade, Sr. Geraldo era uma figura e tanto. Um livro aberto e vivo, que fazia do meu livro escolhido para a viagem, apenas um apoio para as mãos.
- O Senhor parece mesmo gostar de dar aulas.
- Eu? Não. Eu odeio...
- Jura? Mas como assim?
- Sim, odeio... Nas escolas falta estrutura, os alunos são bem mal educados e pouco dedicados, é muito difícil ensinar.
- Então porque você insiste?
- Ahhh... Porque eu sou um vibrador!
Ao me dizer aquela frase, sem dar qualquer conotação pejorativa à palavra “vibrador”, o Senhor Geraldo me provocou uma enorme gargalhada.
- Mas o que é um vibrador? – Eu perguntei.
- Vibrador, Helga, é alguém que vibra com a vida. Eu sou assim... Vibro com a vida.
Senhor Geraldo desceu na rodoviária de Itabirito- Minas Gerais, deixando no meu dicionário um novo significado para a palavra “vibrador”.
Meses depois, quando escutava o discurso do meu chefe fomentando a minha demissão, poucas palavras faziam sentido. Até porque discursos desse tipo se resumem a uma única frase “vou foder sua vida, mas vai ser melhor para você”. Por isso nunca entendo a necessidade de demissões serem tão detalhadas, infestadas de meias-verdades, inundadas de tantas palavras.
Tantas palavras que sequer eu ouvia. A cara do meu chefe impassível era apenas mais um detalhe diante do abismo. Pensava como nunca em Seu Geraldo. Pensava o quão necessário era ter sua nova palavra, naquele momento, no meu curto e limitado dicionário.
Quinta-feira, Setembro 10, 2009
Profissão não é trabalho
(“Welcome to the cruel world. Hope you find your way. Welcome to the cruel world. Hope you find your way. Oh,oh, it’s a cruel world. Try to enjoy your stay. Yes, it is a cruel world when you’re tryin’ to get by. Oh, oh it’s a cruel world when you’re tryin’, when you’ve seen the look in their eye. Makes life hard living, but I’m so, so scared to die”. - Ben Harper – Welcome to the cruel world)
Profissão é talento, trabalho é esforço. Profissão é não ver o tempo passar, trabalho é cartão de ponto. Profissão é remuneração, trabalho é salário. Profissão é cerveja depois do expediente, trabalho é um baseado. Profissão é aprendiz, trabalho é subordinado. Profissão é cabeça acelerada, trabalho é bunda sentada. Profissão é financiamento, trabalho é conta embaixo da porta. Profissão é vontade, trabalho é pró-atividade. Profissão é costume, trabalho é rotina. Profissão é fé, trabalho é crença. Profissão é calça jeans, trabalho é salto. Profissão é bateria, trabalho é pilha. Profissão é energia, trabalho é força. Profissão é para o resto da vida, trabalho é para aposentar. Profissão é ofício, trabalho é tarefa. Profissão é cansaço, trabalho é estresse. Profissão é desafio, trabalho é dificuldade. Profissão é café para distrair, trabalho é café para acordar. Profissão é dedicação, trabalho é ralação. Profissão é dor, trabalho é sofrimento. Profissão é chega, trabalho é foda-se. Profissão é necessidade de espírito, trabalho é necessidade de sobrevivência.
Necessidade é dizer que nada mais adulto do que ver sua profissão se transformar em trabalho.
Necessidade é dizer que nada mais adulto do que ver sua profissão se transformar em trabalho.
Quinta-feira, Setembro 03, 2009
A Camisa
(“Uma Revolta – Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa” – Clarice Lispector)
Ela permaneceu ali, estática, pendurada na porta do meu quarto. Parecia me perguntar indiretamente o que fazer com tudo aquilo. No entanto, eu evitava qualquer confronto com a minha confusão: continuava a passear os olhos, vendo-a balançar sobre a maçaneta.
Uma camisa branca, como talvez o seu passado não fosse. Mas o que é o amor senão uma vontade imensa de se enganar?
Por isso lavei a camisa com aqueles mesmos sabões corrosivos de que são feitos a ilusão. Por isso eu a passei, na esperança de que é possível se desamassar o tempo. Por isso a pendurei na porta, cuidei de tudo com carinho, um carinho doméstico que sempre duvido, mas insisto. O amor de uma mulher é feito disso: cuidado e delicadeza bem passados a ferro.
Deixei a camisa sobre a porta, enquanto meu coração ficava te esperando na janela. Evitávamos a condição dos amores mal resolvidos que oscilam entre a esperança e a desilusão e a camisa pendurada sobre o mesmo eixo. Eu via minha energia desfalecer na angústia. A angústia breve que grita por uma explicação. Estou farta da esquizofrenia dos amores expressos. Estou cansada de um tempo que é tão curto a ponto de não podermos mais sonhar.
Estou exausta do romantismo utilitarista.
Dos cafés que engulo e da borra amarga que sobra.
Eu posso respirar e te esperar em frente ao portão? Você pode me amar apesar de todos os meus defeitos? Podemos desejar algo menos idiota do que assistimos na televisão? Algo que possa andar de mãos dadas?
A camisa pendurada sobre a maçaneta. Meu mundo rodando.
Eu só posso desabotoar. Nenhum sentimento que se preze vem com dispositivos de proteção. Piloto automático. Saída de emergência. Eu só posso desabotoar.
Abandonar o cabide. As esperanças. Eu desabotôo a camisa. Ela não pertence a minha porta. Você também não merece muita esperança. Eu sigo até o lixo. O lixo escuso que fica na escadaria do prédio. Uma casa para a sua camisa. Um lugar frio e escuro. Talvez bem escondido. É o que sinto por você e se parece com nojo.
Eu desço as escadas, sem saber onde vou parar.
Eu acredito que todo recomeço é o passo que se dá depois do final.
Ela permaneceu ali, estática, pendurada na porta do meu quarto. Parecia me perguntar indiretamente o que fazer com tudo aquilo. No entanto, eu evitava qualquer confronto com a minha confusão: continuava a passear os olhos, vendo-a balançar sobre a maçaneta.
Uma camisa branca, como talvez o seu passado não fosse. Mas o que é o amor senão uma vontade imensa de se enganar?
Por isso lavei a camisa com aqueles mesmos sabões corrosivos de que são feitos a ilusão. Por isso eu a passei, na esperança de que é possível se desamassar o tempo. Por isso a pendurei na porta, cuidei de tudo com carinho, um carinho doméstico que sempre duvido, mas insisto. O amor de uma mulher é feito disso: cuidado e delicadeza bem passados a ferro.
Deixei a camisa sobre a porta, enquanto meu coração ficava te esperando na janela. Evitávamos a condição dos amores mal resolvidos que oscilam entre a esperança e a desilusão e a camisa pendurada sobre o mesmo eixo. Eu via minha energia desfalecer na angústia. A angústia breve que grita por uma explicação. Estou farta da esquizofrenia dos amores expressos. Estou cansada de um tempo que é tão curto a ponto de não podermos mais sonhar.
Estou exausta do romantismo utilitarista.
Dos cafés que engulo e da borra amarga que sobra.
Eu posso respirar e te esperar em frente ao portão? Você pode me amar apesar de todos os meus defeitos? Podemos desejar algo menos idiota do que assistimos na televisão? Algo que possa andar de mãos dadas?
A camisa pendurada sobre a maçaneta. Meu mundo rodando.
Eu só posso desabotoar. Nenhum sentimento que se preze vem com dispositivos de proteção. Piloto automático. Saída de emergência. Eu só posso desabotoar.
Abandonar o cabide. As esperanças. Eu desabotôo a camisa. Ela não pertence a minha porta. Você também não merece muita esperança. Eu sigo até o lixo. O lixo escuso que fica na escadaria do prédio. Uma casa para a sua camisa. Um lugar frio e escuro. Talvez bem escondido. É o que sinto por você e se parece com nojo.
Eu desço as escadas, sem saber onde vou parar.
Eu acredito que todo recomeço é o passo que se dá depois do final.
Sábado, Agosto 29, 2009
Curtas
("A vida é doce. Depressa demais." - Lobão)
Eu achei que o amor crescia entre os pequenos espaços cobertos por intimidade.
Não.
O amor só cresce no limbo da paciência.
Eu achei que o amor crescia entre os pequenos espaços cobertos por intimidade.
Não.
O amor só cresce no limbo da paciência.
Terça-feira, Agosto 25, 2009
Antonia
“De novo. De novo essa merda. Os homens devem ter um sindicato. Eles decoram o texto, recitam com a mão no peito e ganham uma carteirinha secreta. No livro de regras deve ter coisas como “nunca fique com uma mulher que possa quebrar seu pobre coração de maricas”, “observe a reação do ex-namorados e ex casos dela. Se forem todos ressentidos, dê um pé imediatamente” e “fuja das mulheres intensas, elas são todas malucas”. Tomei o resto da minha cerveja, peguei a chave e fui para casa. Estava começando a me acostumar. Subi as escadas, entrei em casa e fui escovar os dentes, planejando não trabalhar no dia seguinte, nem no outro, nem no outro. Talvez fosse a hora de me mandar de novo. Ainda não sabia para onde, nunca tinha passado para esta fase do joguinho. Talvez fosse a hora de encarar o meu caminho, queimar na cruz que escolhi, assumir o grande amor da minha vida: escrever. Sabia que era a hora, e não sou dessas que ficam esperando sentadas. Apaguei todas as luzes, deitei e fui dormir”
(“Máquina de Pinball”, Clarah Averbuck, p.75)
(“Máquina de Pinball”, Clarah Averbuck, p.75)
Não, eu simplesmente não sabia o que fazer com tudo aquilo, então entrei no carro e fechei logo as trancas. Queria me proteger do que parecia tão óbvio na minha vida. As pessoas se repetiam em corpos diferentes. Eu sentia que vivia intensamente jogando com as mesmas cartas do baralho. Então tranquei a porta do carro e procurei as minhas próprias trancas. Como se o carro fosse o último lugar seguro do mundo. E talvez seja. Em São Paulo passa-se tanto tempo dentro do próprio carro que uma relação de afetuosidade acaba crescendo. Essa cidade travada e fria. Que vontade de partir daqui. Que lugar mais sem sentido. Vive-se um sonho diário de uma vida melhor nessa cidade. Uma espécie de masturbação com comercial de margarina. A gente sempre acha que aquela vida projetada existe. A gente sempre acha que o céu é de outra cor que não cinza. A gente sempre acha que o cinema não vai ter fila. A gente sonha. Delira com uma vida menos crua. Todo dia. Mas de madrugada essa cidade é tão civilizada e vazia, que é possível sentir a potencia de suas veias. A quinta marcha na 23 de maio. Eu ligo o carro. Quero que São Paulo me engula e me cuspa, como faz todos os dias. Há tantas placas que te levam a lugar nenhum. Há tantas placas que te levam ao mesmo lugar. As placas me encantam. Avenida Brasil. Zona Oeste. Ilha deserta. Tem essa placa? “Retorno a seguir. Ilha deserta”. Me leva para lá. Me engole e me cospe.
Não, eu simplesmente não sabia o que fazer com tudo aquilo então comecei a rodar e andar por ruas que sequer eu conhecia. Qual o caminho? Me faz sorrir a ponto de eu acreditar que a vida não é óbvia?
“Amar alguém é muita coisa”. Gozar entre as suas pernas não é.
“Amar alguém é muita coisa”. O suspiro que antecede o beijo não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Andar de mãos dadas no parque não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Dar-lhe uma camiseta para dormir não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Cuidar da sua escova de dente não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Dividir os problemas não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Apresentar-lhe os amigos de infância não é.
“Amar é muita coisa”. Cafuné antes de dormir não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Admirar o silêncio não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Viver não é.
Morrer não é. Então tudo morria. Quando sequer havia tantas lembranças para que ao menos sobrasse saudade. É tudo tão rápido. É tudo tão depressa. Relacionar-se sem relacionamento. Uma constante dos nossos medos modernos. Uma constante da nossa vida consumida. Uma constante da nossa felicidade idealizada. O monólogo do desencontro.
Com quantas mentiras se constrói um grande amor?
Eu nunca consigo tolerar muitas.
O meu coração é uma espécie de vira-lata em feira pública de doação de animais: abana o rabo para qualquer idiota que lhe faça carinho. Sonha com qualquer promessa de lar. E volta depressa para trás da grade.
Não, eu simplesmente não sabia o que fazer com tudo aquilo então comecei a rodar e andar por ruas que sequer eu conhecia. Qual o caminho? Me faz sorrir a ponto de eu acreditar que a vida não é óbvia?
“Amar alguém é muita coisa”. Gozar entre as suas pernas não é.
“Amar alguém é muita coisa”. O suspiro que antecede o beijo não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Andar de mãos dadas no parque não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Dar-lhe uma camiseta para dormir não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Cuidar da sua escova de dente não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Dividir os problemas não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Apresentar-lhe os amigos de infância não é.
“Amar é muita coisa”. Cafuné antes de dormir não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Admirar o silêncio não é.
“Amar alguém é muita coisa”. Viver não é.
Morrer não é. Então tudo morria. Quando sequer havia tantas lembranças para que ao menos sobrasse saudade. É tudo tão rápido. É tudo tão depressa. Relacionar-se sem relacionamento. Uma constante dos nossos medos modernos. Uma constante da nossa vida consumida. Uma constante da nossa felicidade idealizada. O monólogo do desencontro.
Com quantas mentiras se constrói um grande amor?
Eu nunca consigo tolerar muitas.
O meu coração é uma espécie de vira-lata em feira pública de doação de animais: abana o rabo para qualquer idiota que lhe faça carinho. Sonha com qualquer promessa de lar. E volta depressa para trás da grade.
Quinta-feira, Julho 30, 2009
Zagueiros
(Mas para ser um bom zagueiro Não pode ser muito sentimental Tem que ser sutil e elegante Ter sangue frio Acreditar em si E ser leal - "Zagueiro" Jorge Ben)
Zagueiro é assim: pura defesa. Segue carregando o time nas costas, jogando na espreita, sempre pensando na melhor forma de driblar o adversário. Joga com a fidelidade de um cão de guarda, fazendo nos bastidores a sua rotina.
Zagueiro é aquele que toca a bola, que constrói a estratégia num olhar ligeiro sobre o campo e depois some, antes que os holofotes se virem para o gol. Zagueiro é aquele que muitas vezes entrega os louros, para que o gol seja marcado. Zagueiro é aquele a quem se culpa quando o time perdeu.
Zagueiro é aquele que ama a bola no pé e não o grito da torcida. Zagueiro é rotina e futebol cru.
Mas há momentos, simples momentos em que o ataque falha. A sede do atacante pelo gol é tanta, que ele mesmo se atropela e cai. Há momentos, geralmente quando o ataque se torna mais relevante do que o time, em que o caminho do sucesso é também o caminho do fracasso.
E nesse momento em que o atacante cai, penalizado pelo juiz da ganância. Nesse momento em que o técnico levanta do banco em desespero. Nesse momento em que a torcida se aquieta. Nesse momento em que o time adversário sorri. É exatamente nesse momento, nesse mágico momento, em que o zagueiro tem duas opções: pode ser fiel a defesa ou arriscar e partir para o gol.
Sua traição pode desfalcar o time. Sua traição pode lhe custar sua posição. Sua traição pode significar o seu fracasso.
Mas com a bola no pé, o atacante caído e o placar zerado, o Zagueiro tem tudo e ao mesmo tempo nada a perder. Por isso ele corre. Por isso ele dribla. Por isso, ele segue para o gol como quem tem sua chance de ouro. Por isso ele conduz a bola com paixão.
E porque a vida é também irônica, nesses momentos de fúria e apreensão, o goleiro adversário se desconcerta e falha. E finalmente a bola se choca com a rede. É gol. De placa.
O Zagueiro então levanta a camisa e abre os braços para a torcida. O atacante, ofendido, se zanga. O técnico o repreende com um sorriso.
E enquanto a torcida vibra, o zagueiro chora a sina de quem depende da sorte para mostrar aquilo que pode ser. E brilha. Mais do que qualquer holofote.
O gol da zaga é sempre de fúria. É sempre de risco. E por isso eternamente dolorido.
Às vezes acho que nasci assim, com a mesma sina de muitas outras pessoas: a sina de ser zagueiro.
E quanto mais a vida me massacrar, pela irresponsabilidade de lutar pelo gol, quando devo ser defesa, mas as minhas pernas se fortalecem.
E sem ter medo, eu vou sempre sair da zaga e correr para o gol.
Zagueiro é assim: pura defesa. Segue carregando o time nas costas, jogando na espreita, sempre pensando na melhor forma de driblar o adversário. Joga com a fidelidade de um cão de guarda, fazendo nos bastidores a sua rotina.
Zagueiro é aquele que toca a bola, que constrói a estratégia num olhar ligeiro sobre o campo e depois some, antes que os holofotes se virem para o gol. Zagueiro é aquele que muitas vezes entrega os louros, para que o gol seja marcado. Zagueiro é aquele a quem se culpa quando o time perdeu.
Zagueiro é aquele que ama a bola no pé e não o grito da torcida. Zagueiro é rotina e futebol cru.
Mas há momentos, simples momentos em que o ataque falha. A sede do atacante pelo gol é tanta, que ele mesmo se atropela e cai. Há momentos, geralmente quando o ataque se torna mais relevante do que o time, em que o caminho do sucesso é também o caminho do fracasso.
E nesse momento em que o atacante cai, penalizado pelo juiz da ganância. Nesse momento em que o técnico levanta do banco em desespero. Nesse momento em que a torcida se aquieta. Nesse momento em que o time adversário sorri. É exatamente nesse momento, nesse mágico momento, em que o zagueiro tem duas opções: pode ser fiel a defesa ou arriscar e partir para o gol.
Sua traição pode desfalcar o time. Sua traição pode lhe custar sua posição. Sua traição pode significar o seu fracasso.
Mas com a bola no pé, o atacante caído e o placar zerado, o Zagueiro tem tudo e ao mesmo tempo nada a perder. Por isso ele corre. Por isso ele dribla. Por isso, ele segue para o gol como quem tem sua chance de ouro. Por isso ele conduz a bola com paixão.
E porque a vida é também irônica, nesses momentos de fúria e apreensão, o goleiro adversário se desconcerta e falha. E finalmente a bola se choca com a rede. É gol. De placa.
O Zagueiro então levanta a camisa e abre os braços para a torcida. O atacante, ofendido, se zanga. O técnico o repreende com um sorriso.
E enquanto a torcida vibra, o zagueiro chora a sina de quem depende da sorte para mostrar aquilo que pode ser. E brilha. Mais do que qualquer holofote.
O gol da zaga é sempre de fúria. É sempre de risco. E por isso eternamente dolorido.
Às vezes acho que nasci assim, com a mesma sina de muitas outras pessoas: a sina de ser zagueiro.
E quanto mais a vida me massacrar, pela irresponsabilidade de lutar pelo gol, quando devo ser defesa, mas as minhas pernas se fortalecem.
E sem ter medo, eu vou sempre sair da zaga e correr para o gol.
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