sexta-feira, junho 30, 2006

"Foda-se"

Conversando com muitas pessoas por esta vida, acho que encontrei o mais potente dos anti-depressivos: o real e moderno caminho da felicidade. Cem por cento natural, não contém transgênicos, sem nenhuma contra indicação, além de ser acessível a qualquer bolso. Rola um certo modismo por aí, afinal é dificil encontrar quem não se valha dele. Confesso que também me rendi.
Prático, cabe na bolsa e desde de a invenção do "abracadabra" e dos psicotrópicos de última geração, nenhum substantivo ou subtância tinha um potencial tão mágico quanto este. Trata-se do "Foda-se".
"Foda-se" ultrapassa a eficiência de um produto comum: pode ser consumido a qualquer momento, sem nenhuma restrição.
Seu manuseio supera as expectativas. O "foda-se" é simples, não precisa de refrigeramento ou temperatura especial, cabe em qualquer espaço, adaptável a todas as situações. E o resultado? I-me-di-a-to. "Foda-se" produz, logo após seu manuseio, um sorriso e um alívio instantâneos. Quer ver?
Pegue uma situação. Qualquer uma da sua vida. Pense naquela que anda te incomodando mais ultimamente. Mentalize com força... Vamos lá? Não acordou num cenário de propaganda de margarina? Pior... Brigou com o chefe? Com a mãe? Com o namorado? Apaixonou-se e levou um pé na bunda? Foi demitido? Engordou três kilos? Foi mal na prova? Teve uma puta dor de barriga no meio de uma reunião importantíssima? Bateu o carro? Cólica menstrual? Calos no pé? Saudade? Frieiras? Solidão? Sarna?Ansiedade? Gripe? Crise existencial? Separação dos pais? Conta do banco no vermelho? Seus problemas acadaram...
Respire fundo, vai sentindo o ventinho do "F" bem ali na frente da sua boca. Deixa vir de dentro, sem medo... Isso. Tá indo bem. Inclui o "O" agora... Deixa fluir o "Fo", já junta com o "Da", mas não se esquece da entonação e da respiração. Isso são detalhes importantissimos! Agora vai vindo! Isso, sem deixar parar sai o "se". Junta tudo, "Foda-se"! Cade o problema? Aposto que você nem se lembra mais dele.
"Foda-se" é assim, imune a todos os incomôdos. Porque o "foda-se" nos torna adapatáveis ao sofrimento. Com o "foda-se" não tem tempo ruim, melancolia de final de domingo ou solidão... Por isso? Se algum sapo não te desce na garganta, não tenha dúvida, beba com um gole de "foda-se" e tudo estará melhor. O "foda-se" desce redondo. Desce macio e reanima!
"Foda-se" em doses não homeopáticas, três vezes ao dia, depois das refeições principais. De repente sua vida começar a andar tão rápido, que você sentirá que o sofrimento não te alcança mais. Pois, quando ele estiver por perto, você já ativou o "foda-se" e tudo já mudou de cenário. O "Foda-se" desapega, minha gente! O "foda-se" salva.
E a tua força é assim tão grande, que pode até virar religião, comunidade no orkut, política pública ou movimento de esquerda. Adeptos do "Foda-se" uni-vos!
"Foda-se". Nada é imune ao "Foda-se". Pois o homem criou no "foda-se" a sua imagem e semelhança.
Por exemplo agora, talvez esse texto te incomode. O blog assumiu um tom sarcástico e as minhas palavras soam quase como um beliscão na alma? "Foda-se".
"Foda-se" muito tudo isso!
E desde que comecei a utilizar o "foda-se" nada mais me incomodou. Exceto um pequeno detalhe que penso até em dividir com os demais usuários, para ver se isso acontece com vocês também.
Em um dia muito ruim, escovando os dentes, percebi que estava chateada com um monte de coisas na minha vida. Imediatamente, fiz o uso do "foda-se". E lembra-se do suspiro seguido do alívio, que comentei? Pois é, me olhei no espelho e percebi que aquele sorriso pós "foda-se" não era um sorriso comum... não era um sorriso normal. Não iluminava, não desarmava, não revolucionava nada. Por alguns segundos eu percebi que aquele sorriso não me trazia humor para lidar com a vida. Percebi que eu estava me tornando não uma pessoa feliz, mas uma pessoa cínica... Então, tomei outro "foda-se" logo em seguida e passou. Já aconteceu isso com você?

sábado, junho 24, 2006

Momento de histeria jurídico



O ultimo pedido de Saddam...

terça-feira, junho 20, 2006

Você é um bosta

Eu ainda não havia me cansado quando você me ejetou céu abaixo do seu vôo de um piloto só. Ou será que eu mesma me joguei? Fazer parte das tuas asas foi uma sensação leve de experimentar de novo o amor. Sem medo e sem coragem. Por isso, aguardava ansiosa o teu nome piscar na tela do meu celular para depois sorrir de graça, com toda a meninice que o tempo ainda não me consumiu. Mas você foi embora sem que eu pudesse descobir se era louca pelo seu cheiro, pela sua prolixidade, pela sua pinta do lado esquerdo do queixo ou pelas fantasias de Borges que você recria na sua vida. As vezes eu penso que se meu coração tivesse um detector de mentiras, suas palavras não seriam um tapete vermelho para todas as minhas expectativas. Porque te amei, também, pelo que você não deixou acontecer. Como aquele presente que eu devolvi na loja, porque não tive tempo de te dar. Embora tenha desejado o teu sorriso ao recebê-lo.
Quando sobrou só eu e a saudade, fui para a rua e beijei outras bocas, acordei em outras camas e voltei para casa ouvindo Chico Buarque ("e quantas águas rolaram, tantos homens me amaram, bem mais e melhor que você"...) lamentando o meu lado mesquinho que insistia em sofrer por você. Porque com o tempo, descobri que você era bem menor que todos os meus enormes sentimentos.
Eu deixei você apodrecer aqui dentro. Junto com aquele "eu te amo", que você dizia como quem diz um corriqueiro "bom-dia". Como quem brinca com as palavras para fazer propaganda. E brinca com as palavras para encantar o coração alheio. Mas o alumbramento acabou.
E nessas mesmas palavras, eu encontrei a tua função e o meu consolo, talvez você tenha sido apenas um antídoto para outros relacionamentos furados. Outros amores bandidos e maltrapilhos feito esse que você gravou num cd.
Foram nessas mesmas palavras que eu me libertei e quando não soubrou o sentimento nem a resignação, veio o ponto final, a conclusão. Quando penso em você, quando ainda penso, uso o teu mesmo jogo de palavras para contar uma nova verdade. Dessas mesmas verdades que não são absolutas. Mas o que importa? O que importa desde que você fechou aquela porta, para abrir meus olhos de tanta ilusão. E quando vejo e tento negar, para poupar um aconchego para as lembranças, encontro apenas impossibilidades. Porque as pessoas são, aquilo que elas são. Hoje. E sem negar o passado, sem contar histórias para mim mesma, para desconsiderar sua poética rescunhada de Garcia Lorca, eu precisava dizer.Sem o tom piegas de um amor mal vivido. Sem a nota saudosa de um passado compartilhado. Sem negar o que a realidade nos escarra e o que os olhos lavam com as lágrimas.
Para mim você é um bosta. E ponto final. E um dia eu precisava escrever isso.

segunda-feira, junho 19, 2006

Sobrenome Projeto 2

"A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro"...
(John Lennon Projeto)

domingo, junho 18, 2006

Sobre ter ou não ter

"Sometimes I can't move my feet it seems As if I'm stuck in the ground somehow like a tree As if I can't even breathe Oh, and my screams come whispering out As if nobody can even see meLike a ghost, sometimes I can't see myself Sometimes, then again, ohIf I were a kingIf I had everything If I had you and I could give you your dreams If I were giant-sized, on top of it all Then tell me what in the world would I sing for If I had it all Sometimes I feel lost As I pull you out like strings of memories Wish I could weave them into youThen I could figure the whole damn puzzle out Then again, oh"
(If I had it all, Dave Matthew's Band- música para a alma, em dias que se tem nada ou muito pouco)

sexta-feira, junho 16, 2006

Cinderhelga!


Cinderhelga é uma princesa que acorda todos os dias atrasada. Motivo pelo qual despenca de sua torre no décimo primeiro andar mastigando alguma possibilidade de café da manhã. Sorri para o porteiro, que retribui num olhar simpático, demonstrando afinidade com a mocinha atribulada. Corre para o ponto de ônibus, desanimada com a sua pequena realidade metafísica de sardinha. Talvez sobre um lugar, mas o consolo surge fácil em sua mente: quem precisa de um carro quando existe um Jardim Helga até o Vale das virtudes?! É o que pisca no ônibus e a moça diz bom dia então, ao cobrador. Esquecendo-se de que é só mais um ser amarrotado. Trabalha.Desistiu de encontrar príncipes e dada a fartura de sapos que rondam sua tragetória, apaixonou-se pela idéia de montar um brejo. Guarda os amores para um samba de Chico Buarque, inpirados com um jazz e uma luz de velas. Não pensa no par perfeito, mas se desilude com a capacidade das pessoas de desentender sua intensidade. No fundo ela gosta mesmo é da fugacidade das paixões. E tem dificuldades em transformá-las no amor.Vive todas as paixões do mundo, ali sentada no ônibus indo para o trabalho.Inconformada com o cotidiano e a realidade. Vive todas as paixões sentada e pensando, em um banco de ônibus.Vive de dieta, exatamanete porque se alimenta de paixões. E sofre de gastrite porque paixões cultivam temperos fortes demais. Corre para esquecer a vida. Corre para passar o tempo.Sofre de um mal constante, coitada dessa princesa! Precisa de endorfina, serotonina e adrenalina em doses não homeopáticas. Senão ela surta. E poucas pessoas entendem isso.Volta para casa com o estômago em frangalhos e sempre se desilude com uma geladeira de final de mês. Atravessa a rua e vai para a realidade. Nesse mundo do dever ser. Direito e reto, não sabe como entender aquilo que não se escreve nas leis. Bom seria que a vida fosse uma norma. Sintética norma.Depois retorna a Helgolândia para um noite de sono tranquilo. Dessas em que se deseja sonhar voando. Abraça o travesseiro, fecha os olhos lentamente. Quando chove, coloca o rádio perto da cama e dorme com Miles Davis. Sonhando com o dia seguinte que não muda.Projetando a vida mudar.Cinderhelga é uma princesa que acorda atrasada. Mas a par disso, tem dentro de si, todos os projetos de sonhos do mundo.

quinta-feira, junho 15, 2006

Comente! (ou seja bem-vindo!)

Já recebi criticas, elogios, sugestões, telefonemas e mensagens na garrafa por conta deste blog. Recados que na maioria das vezes são deixados pessoalmente e que os recebo com um carinho tão grande, que me transborda o peito. Por vezes, não ignoro os olhos silenciosos, que como os teus, devem estar assistindo atentamente a dança das minhas palavras e, silenciosamente também desejo que elas te tragam um pouco dessa alegria e inspiração, que para mim é escrever. Um orgasmo multiplo de sinapse.
Minha relação com as palavras é de um amor estranho, que eu traduzo na minha maneira intensa de experimentar a vida. E por isso escrevo. O que não passa do texto é a sensação mágica da felicidade que me invade, de me transcrever e traduzir tantas vezes.
Já perguntei para alguns desses leitores porque é que eles não comentam meus textos, e muitos deles apontaram que o meu estilo intimista e pessoal dispensa comentários. Discordo.
Na verdade esse meu monólogo com a palavra, pede um pouco dos teus sentidos também. E se você se inspirar pode me deixar um recado, afinal também tenho um lado de escritora carente! E me preocupo, inclusive, com os meus erros de português.
Talvez, dessas minhas palavras, você nunca tenha encontrado um 'bem-vindo", que fica implicito no meu sorriso ao terminar o post. Que é um parto e uma explosão de arte em mim.Mas que também pode ser de você.
Portanto, explicitamente, meu silencioso leitor, seja bem vindo! Meu estilo intimista não escapa o desejo de te ouvir. Mesmo que seja um sonoro "vai tomar no cú, Helga!".
Um recadinho? Unzinho só! Pode ser?! Quem vem lá...?

terça-feira, junho 13, 2006

O fascinio e o absurdo

Acordei para o dia, como todos os dias são. Com a diferença de que hoje as ruas viraram um pedaço do campo, onde camisas 10 desfilam para esbanjar a honra ou o charme de ser brasileiro. Um dia pelo menos. As aulas foram interrompidas mais cedo, por um motivo nobre que é um jogo de copa do mundo. Assim como foi finalizado o expediente. As cornetas e buzinas anunciavam um dia especial. Era uma espécie de dança da chuva, que nos servia para aplacar a ansiedade coletiva deste trovão, que é o nosso grito de gol. Um grito real e forte que extrapola a competencia de um hino, porque simplesmente simboliza e significa, quando dito por si só. Porque o que esse povo tem de povo, é o que rola com aquela bola invejada e desejada, neste espírito que se traduz somente aqui. Neste dia em que vivemos em um país tão distante e diferente. De uma união sólida e nobre que chega a maquiar o absurdo tão bem estampado das nossas manchetes de jornal. Se gritassemos "chega" assim como gritamos "gol", será que um dia isso seria mais do que uma república de bananas? Um sótão com vista para o mar da américa latrina?
Se interrompessemos nossos dias para finalizar uma historia de banalização e corrupção, não teriamos mais motivos para abrir uma cerveja estupidamente gelada? E escandalizar a euforia de um dia acordar um pouco mais digno para finalmente andarmos pelas ruas com a real felicidade de ser brasileiro?
Se um dia a nossa concentração fosse a mesma que se faz, minutos antes do jogo da final começar, só para poder mudar o fascinio e o absurdo de viver aqui, talvez nossa alegria pudesse ser mais sincera, mais honesta.
E eu confesso, com a pieguice tão típica de um Policarpo Quaresma, que eu desejo isso muito mais do que desejo o hexa.

quinta-feira, maio 18, 2006

15.05.2006

Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada. Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Toda forma de conduta se transforma numa luta armada. Numa cruzada. Se tudo passa. Talvez você passe por aqui e me faça esquecer tudo o que eu vi. É fácil ir adiante, esquecer que a coisa toda ta errada. A história se repete, mas a força deixa a história mal contada (inacabada).
(Toda forma de poder - Engenheiros do Hawai)

Violência

Essa cidade que dormiu no colo do medo acordou em pânico quando se deu conta de que não havia ônibus para trabalhar. E seu ritmo febricitante, agonizado no andar apressado das suas ruas, substituiu uma paisagem de abandono. No dia em que todos nós mitigamos nossa liberdade no transito que não andou. No dia em que o medo assumiu todas as formas de poder, e andávamos acuados sem armas e sem proteção. E aquele Estado Paralelo que tanto se falava, rompia suas fronteiras, no dia em que todos nos fomos mais cedo para casa. Compulsoriamente.
E a violência da sua força bruta, que transparece nesses prédios gigantes, foi substituída pela violência do silêncio. Silêncio do corpo frio que experimentou a terra com o coração dilacerado a balas. Eram lágrimas. Dos mocinhos e dos bandidos. Que somos todos nós. Cúmplices.
No dia em que o abismo social se tornou tão raso, que não podíamos nos afundar mais em nossa hipocrisia. Experimentamos o medo e uma cidade vazia.

segunda-feira, maio 15, 2006

Porque decepei a língua portuguesa (errata)

Bom, embora a manifestações dos leitores desse blog seja tão silenciosa, venho por meio desta, publicar uma singela errata em relação ao meu erro crasso de português. Enfim, na ultima postagem no lugar de "guilhotina", escrevi "gliotina" e acabei, por assim dizer, decepando não só o coração bobo, mas também a língua portuguesa.
Contudo, Professor Pasquale já fez uma visita emergencial a Helgolândia e tudo encontra-se devidamente corrigido.
Em nota oficial, Cinderhelga declarou que vem se desentendendo com a língua portuguesa, por motivos de falta de concentração: "sabe o que é, ando falando demais a língua do P (...)". Conteúdos misteriosos a parte, encontra-se salva a "guilhotina" da língua portuguesa...

domingo, maio 07, 2006

A guilhotina

Num dia de trovoadas na Helgolândia...

Cinderhelga: Senhor Bobo da Corte? Pode me fazer um favor?!
Bobo da Corte: Como não minha princesa? O que desejas?
Cinder: Chame o Sr. Coração, temos preparativos a serem realizados: uma nova revolução se aproxima da Helgolândia...
Bobo: Revolução?!
Cinder: Sim, quero inaugurar um “brejo de príncipes” aqui.
Bobo: Mas brejos são para sapos!
Cinder: Por isso que você é bobo! É uma revolução em todos os conceitos da Helgolândia! Até hoje brejos eram para sapos. Mas levando em consideração as nossas estatísticas que demonstram que 99% dos príncipes beijados se tornaram sapos com uma velocidade descomunal, inauguraremos um brejo de príncipes.
Bobo: Mas o que o Coração tem a ver com essa sua idéia maluca?
Cinder: Na verdade, ao lado do “brejo de príncipes” vou inaugurar a “guilhotina das ilusões”. E, para fazer o teste da lâmina, chamarei o Coração.
Bobo: Você esta completamente doida! O teste da guilhotina vai matar o meu melhor amigo e eu não posso colaborar com essa sua idéia...
Cinder: Às vezes você é menos bobo do que eu imagino. Um Coração bobo e um Bobo da Corte só poderiam ser melhores amigos, sempre soube... Mas decepando um Coração, perdemos todas as ilusões. E a Helgolândia será “tranqüila para sempre”.
Bobo: Mas o plano não era “ser feliz para sempre” ? Porque você quer acabar com as ilusões? Não eram elas as responsáveis pelos dias de sol da Helgolândia?
Cinder: Não, elas eram responsáveis por um dia de sol, e uma semana de trovoadas posteriores...
Bobo: Mas porque o Coração tem que ser decepado em nome das ilusões?
Cinder: Para um Bobo parece que se tem que explicar tudo mesmo...Você sabe que além de ser seu melhor amigo, ele adora andar ao lado das ilusões. É só aparecer alguma ilusão que você e esse seu amigo Coração ficam lá feito bobos.
Bobo: Mas eu sou um bobo, nada mais natural...
Cinder: Mas vocês já deram trabalho demais com tantas ilusões e desse jeito eu nunca consigo colocar ordem nesse reino. É só estar tudo tranqüilo na Helgolândia, não demora muito, temos mais um sapo no lugar de um príncipe e por culpa de quem? Das ilusões e do Coração, que faz o favor de deixar que elas entrem na Helgolândia sem nenhuma objeção.
(De repente aparece o Coração no hall do Castelo principal da Helgolândia)
Coração: Vossa Alteza!? Quais as novidades do reino?
Cinder: Tenho uma ótima para você... Inauguraremos dentro de semanas uma “Guilhotina de ilusões” aqui na Helgolândia e você será o nosso teste da lâmina...
O Coração trocou olhares com o Bobo sem entender muita coisa...
Coração: Vai me decepar porque?
Cinder: Para ver se as ilusões não aparecem mais por aqui...Cansei das confusões que vocês aprontam.
Coração: Eu te falei Bobo... Depois que ela colocou o Medo como conselheiro-mor da Helgolândia, iriam acontecer coisas terríveis por aqui...
Cinder: Eu sabia que vocês não gostavam do Medo. Nunca se deram com ele, não? Mas fiquem vocês dois sabendo que o Medo possui uma das melhores qualidades para um conselheiro-mor: a prudência. Aliás, prudência que você e nem esse Bobo tiveram durante muito tempo aqui na Helgolândia...
Coração: Quer saber? Pode me decepar...
Bobo: Você esta louco?! Pronto... Eu que sou o bobo e todo mundo querendo ser mais bobo do que eu... Não suporto mais essa concorrência!
Cinder: É bom que não questione a minha autoridade...
Coração: Eu quero mesmo que você me decepe. Para perceber que não é acabando com um Coração que as ilusões vão embora. Diga-se de passagem, quem gosta mesmo de ilusões é o seu conselheiro-mor e prudente chamado Medo e não eu. São as medidas tomadas pelo Medo, princesa, que te impedem de enxergar a realidade e acabam inundando esse reino de ilusões. Mas faz o que você quiser, Senhorita Autoridade. Eu posso ter lhe causado muitas confusões sim, mas porque decidir viver como foi possível viver. Muitas vezes eu me machuquei, tive retiros imensos na Torre do Tempo, me senti cansado e esfolado. Mas quer saber? Eu não faria nada diferente. Muitas vezes eu estou tranqüilo com o Bobo, divertindo a Helgolândia... Se o amor chega, com ilusões ou não, se ele me apresenta príncipes fantasiados de sapos, se ele me traz dias de angustia por telefonemas que não chegam, se ele me traz dias tristes porque a saudade vem... Eu simplesmente decidi viver, porque sou um Coração e nasci para isso. É essa a minha vocação.
Você fecha as portas desse reino para as ilusões porque teme o amor. O amor que você procura em todos esses príncipes sapos que são só um lado bom e um lado ruim na mesma pessoa. Porque você acha que o amor se procura, não é?
Cinder: E quando se acha, encontramos o “final feliz”, o maior tesouro da Helgolândia.
Coração: Os finais não são felizes, porque acabam. E felicidade não é fim, nem começo, nem meio. É só um dia de sol, que você coloca as mágoas para secar.
Eu sei que o Medo e você fizeram milhões de estratégias para encontrar o amor. O sarcasmo de construir guilhotinas e brejos só poderia vir da cabeça dele...
Cinder: Já chega de ironias, senhor Coração sabido... Continuarei com o meu conselheiro e aguarde a minha revolução. A Helgolândia vai mudar, e tenho dito...
Coração: Pois bem Vossa Alteza... Agora, anota essa aí no seu protocolo de medidas revolucionárias: o grande problema da prudência do seu conselheiro Medo é que ele não consegue enxergar que as ilusões invadem esse reino por um motivo só! O amor, não se procura. O amor acontece.
Por hoje é só, Vossa Alteza às vezes me cansa... Vamos Bobo, chega de questionar a autoridade da nossa princesa...

E o Coração, que era impulsivo demais, se fartou da prudência autoritária da princesa e saiu batendo as portas do Castelo principal da Helgolândia.
Cinderhelga olhou na ante-sala do Hall principal do Castelo e encontrou o conselheiro Medo fazendo planos estratégicos para a revolução que em breve aconteceria. Depois olhou pelas janelas da Helgolândia... Chovia torrencialmente. Era um dia triste.
Ela colocou um jazz para tocar e foi correr alguns quarteirões. Porque as palavras daquele Coração incomodavam bastante...

terça-feira, abril 25, 2006

sobre o sol...

Essa luz amarela que invade o quarto, roubando toda a minha concentração. É o espetáculo majestoso de mais um sol que se põem. Para este dia que se vai assim, trancado neste quarto, que são mais livros do que poesia.
Mas neste instante amarelo de profunda respiração, deu tempo para não pensar em nada. Passei o dia todo tentando saber mais do que podia. Mas que esqueci que tudo o que é sábio e grande nesta vida, são pequenos momentos, deste jeito, que nos levam a tarde e reticências...
Respirei no meio dessa confusão de amadurecer sem endurecer, todo dia, um pouquinho. E fui feliz no minuto assim.Amarelo que foi ficando rosa até escurecer. E pedi para esse céu de estrelas, um pouco dessa fé, que fica neste céu aqui de dentro e que uns tempos para cá deu para nublar...

domingo, abril 23, 2006

Vinho

"Esse papo seu tá qualquer coisa, você já esta pra lá de Marraqueshhhhhhhhhhhh
Mexe qualquer coisa, dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe..."
(Qualquer coisa - Caetano Veloso)

sexta-feira, abril 21, 2006

Injustiça

Se a boca cala, é porque sente que os gritos são como um assovio, que nada ou muito pouco conseguem protestar. Porque não há razão, quando aquilo que se impõem é só a força bruta e nada mais. Do que é hierárquico e injusto. Porque não foi institucionalizado no respeito. E é desse desrespeito caricato, que nos acostumamos a sobreviver, para ler as próximas manchetes dos jornais.Que vem logo no dia seguinte. É do desrespeito assim, legislativo, positivado, socializado e interno. Mas a boca cala e seca, porque não adianta gritar. E talvez a melhor saída para isso tudo, seja aquela porta do próximo aeroporto.
É a boca que seca, a garganta que seca. E os olhos molham, porque ainda conseguem sucumbir ao desrespeito que corta a alma. Para aqueles poucos que escolheram ter um pouco de valor. Ou valores.
Injustiça é dor da alma. Que machuca a honra. Fere a dignidade.
É dor que esse povo não tem.
Ou se tem. Fica escondida no próximo escândalo, na próxima novela que a gente costuma comprar. O circo pelo pão. O pão pelo circo.

sexta-feira, abril 14, 2006

Sem forma

A minha natureza é curiosa e insubordinada. Sempre questionando, sempre questionada. Porque preciso dizer o que acho que as palavras podem dizer. E por isso digo. Digo porque não sei ser, quem não posso ser, e se é preciso falar, ainda que não seja interessante dizer, simplesmente não calo. E eu sempre falo.
Porque sou uma tempestade com trovões. Uma verdadeira chuva de verão. E se é preciso molhar: me encharco. Não sei ser garoa. É na constância daqueles pingos finos que justamente me afogo.
É cotidiano que me mata, todo dia um pouquinho. Porque perdi o cabresto dos meus sonhos e não sei mais.
É a rebeldia de quem nunca se adestra. De quem nasceu sem a forma, ou perdeu a bula.
Porque o que eu tenho de doce, é temperado com canela. Acrescente mel, se quiser me entender.

quinta-feira, abril 13, 2006

Avenida Paulista, sexta feira, 7 de abril de 2006

"Você vai pagar e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia"

(Chico Buarque, "Apesar de você" - trilha sonora de uma demissão devidamente chorada em um ônibus lotado, numa sexta feira injusta)

Mais uma vez

Acho que foi assim: bateu de novo o amor na minha porta. Como sempre, com a mesma irreverência, que vinha logo ali, num sorriso azul. Chegou sorrateiro, com um novo contrato de adesão, com cláusula de “não sofrimento”.
Não tive reação mais sincera que não bater a porta. Deixando o amor, ali do outro lado entregue ao vazio da minha raivosa indiferença. E não adiantaria insistir. Dessa vez, ainda que meu coração surdo, ouvisse com tanto zelo suas propostas, não aceitaria as mesmas ilusões em roupas novas. Tranquei a porta.
Voltou logo no outro dia. Tocou a campainha e saiu correndo. Como não vi que se tratava do amor, quando abri a porta para ver quem era, ele entrou sem eu perceber. Instalou-se logo no sofá da sala. Confortável, como um moleque só.
Irritada como só eu estava, enxotei o amor de vez e disse que não mais voltasse. Sob pena de me encontrar em estado de fúria profundo.
Mas o amor pulou o muro. E foi parar direto no meu jardim. Quando me dei conta, no meu jardim seco e esquecido, havia sim uma outra semente, e não pude resistir. Num suspiro de quem entrega os pontos, aliviei e sucumbi. Reguei com carinho, aquilo que só molhei com raiva.

sábado, abril 01, 2006

(...)

"I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star
In somebody else's sky, but why, why, why
Can't it be, can't it be mine"

(Pearl Jam, Black)

Deixe o menino brincar...

A cada sinal fechado é quase sempre a mesma cena. Realidade incômoda. O medo do assalto, a fragilidade dos nossos sentimentos, a impotência de nossos esforços. A indiferença para a diferença. Nos escondemos atrás dos vidros escurecidos então. Cada vez mais escuros. É melhor não ver. A garganta fecha e o próximo gole de saliva vai ser mais difícil de escorregar. Talvez você compre uma bala, para doar em moedas um futuro para essas crianças sem futuro. Que fazem da faixa de pedestres o novo palco da tristeza. Malabaristas da pobreza humana. A que preço? Das balas mais caras e menos doces que compramos...A cada sinal.
Há quantas os olhos agüentam? Deixe o menino brincar... Por favor, deixe o menino brincar. Brincar.Deixe ele ser palhaço.