quinta-feira, maio 18, 2006

15.05.2006

Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada. Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Toda forma de conduta se transforma numa luta armada. Numa cruzada. Se tudo passa. Talvez você passe por aqui e me faça esquecer tudo o que eu vi. É fácil ir adiante, esquecer que a coisa toda ta errada. A história se repete, mas a força deixa a história mal contada (inacabada).
(Toda forma de poder - Engenheiros do Hawai)

Violência

Essa cidade que dormiu no colo do medo acordou em pânico quando se deu conta de que não havia ônibus para trabalhar. E seu ritmo febricitante, agonizado no andar apressado das suas ruas, substituiu uma paisagem de abandono. No dia em que todos nós mitigamos nossa liberdade no transito que não andou. No dia em que o medo assumiu todas as formas de poder, e andávamos acuados sem armas e sem proteção. E aquele Estado Paralelo que tanto se falava, rompia suas fronteiras, no dia em que todos nos fomos mais cedo para casa. Compulsoriamente.
E a violência da sua força bruta, que transparece nesses prédios gigantes, foi substituída pela violência do silêncio. Silêncio do corpo frio que experimentou a terra com o coração dilacerado a balas. Eram lágrimas. Dos mocinhos e dos bandidos. Que somos todos nós. Cúmplices.
No dia em que o abismo social se tornou tão raso, que não podíamos nos afundar mais em nossa hipocrisia. Experimentamos o medo e uma cidade vazia.

segunda-feira, maio 15, 2006

Porque decepei a língua portuguesa (errata)

Bom, embora a manifestações dos leitores desse blog seja tão silenciosa, venho por meio desta, publicar uma singela errata em relação ao meu erro crasso de português. Enfim, na ultima postagem no lugar de "guilhotina", escrevi "gliotina" e acabei, por assim dizer, decepando não só o coração bobo, mas também a língua portuguesa.
Contudo, Professor Pasquale já fez uma visita emergencial a Helgolândia e tudo encontra-se devidamente corrigido.
Em nota oficial, Cinderhelga declarou que vem se desentendendo com a língua portuguesa, por motivos de falta de concentração: "sabe o que é, ando falando demais a língua do P (...)". Conteúdos misteriosos a parte, encontra-se salva a "guilhotina" da língua portuguesa...

domingo, maio 07, 2006

A guilhotina

Num dia de trovoadas na Helgolândia...

Cinderhelga: Senhor Bobo da Corte? Pode me fazer um favor?!
Bobo da Corte: Como não minha princesa? O que desejas?
Cinder: Chame o Sr. Coração, temos preparativos a serem realizados: uma nova revolução se aproxima da Helgolândia...
Bobo: Revolução?!
Cinder: Sim, quero inaugurar um “brejo de príncipes” aqui.
Bobo: Mas brejos são para sapos!
Cinder: Por isso que você é bobo! É uma revolução em todos os conceitos da Helgolândia! Até hoje brejos eram para sapos. Mas levando em consideração as nossas estatísticas que demonstram que 99% dos príncipes beijados se tornaram sapos com uma velocidade descomunal, inauguraremos um brejo de príncipes.
Bobo: Mas o que o Coração tem a ver com essa sua idéia maluca?
Cinder: Na verdade, ao lado do “brejo de príncipes” vou inaugurar a “guilhotina das ilusões”. E, para fazer o teste da lâmina, chamarei o Coração.
Bobo: Você esta completamente doida! O teste da guilhotina vai matar o meu melhor amigo e eu não posso colaborar com essa sua idéia...
Cinder: Às vezes você é menos bobo do que eu imagino. Um Coração bobo e um Bobo da Corte só poderiam ser melhores amigos, sempre soube... Mas decepando um Coração, perdemos todas as ilusões. E a Helgolândia será “tranqüila para sempre”.
Bobo: Mas o plano não era “ser feliz para sempre” ? Porque você quer acabar com as ilusões? Não eram elas as responsáveis pelos dias de sol da Helgolândia?
Cinder: Não, elas eram responsáveis por um dia de sol, e uma semana de trovoadas posteriores...
Bobo: Mas porque o Coração tem que ser decepado em nome das ilusões?
Cinder: Para um Bobo parece que se tem que explicar tudo mesmo...Você sabe que além de ser seu melhor amigo, ele adora andar ao lado das ilusões. É só aparecer alguma ilusão que você e esse seu amigo Coração ficam lá feito bobos.
Bobo: Mas eu sou um bobo, nada mais natural...
Cinder: Mas vocês já deram trabalho demais com tantas ilusões e desse jeito eu nunca consigo colocar ordem nesse reino. É só estar tudo tranqüilo na Helgolândia, não demora muito, temos mais um sapo no lugar de um príncipe e por culpa de quem? Das ilusões e do Coração, que faz o favor de deixar que elas entrem na Helgolândia sem nenhuma objeção.
(De repente aparece o Coração no hall do Castelo principal da Helgolândia)
Coração: Vossa Alteza!? Quais as novidades do reino?
Cinder: Tenho uma ótima para você... Inauguraremos dentro de semanas uma “Guilhotina de ilusões” aqui na Helgolândia e você será o nosso teste da lâmina...
O Coração trocou olhares com o Bobo sem entender muita coisa...
Coração: Vai me decepar porque?
Cinder: Para ver se as ilusões não aparecem mais por aqui...Cansei das confusões que vocês aprontam.
Coração: Eu te falei Bobo... Depois que ela colocou o Medo como conselheiro-mor da Helgolândia, iriam acontecer coisas terríveis por aqui...
Cinder: Eu sabia que vocês não gostavam do Medo. Nunca se deram com ele, não? Mas fiquem vocês dois sabendo que o Medo possui uma das melhores qualidades para um conselheiro-mor: a prudência. Aliás, prudência que você e nem esse Bobo tiveram durante muito tempo aqui na Helgolândia...
Coração: Quer saber? Pode me decepar...
Bobo: Você esta louco?! Pronto... Eu que sou o bobo e todo mundo querendo ser mais bobo do que eu... Não suporto mais essa concorrência!
Cinder: É bom que não questione a minha autoridade...
Coração: Eu quero mesmo que você me decepe. Para perceber que não é acabando com um Coração que as ilusões vão embora. Diga-se de passagem, quem gosta mesmo de ilusões é o seu conselheiro-mor e prudente chamado Medo e não eu. São as medidas tomadas pelo Medo, princesa, que te impedem de enxergar a realidade e acabam inundando esse reino de ilusões. Mas faz o que você quiser, Senhorita Autoridade. Eu posso ter lhe causado muitas confusões sim, mas porque decidir viver como foi possível viver. Muitas vezes eu me machuquei, tive retiros imensos na Torre do Tempo, me senti cansado e esfolado. Mas quer saber? Eu não faria nada diferente. Muitas vezes eu estou tranqüilo com o Bobo, divertindo a Helgolândia... Se o amor chega, com ilusões ou não, se ele me apresenta príncipes fantasiados de sapos, se ele me traz dias de angustia por telefonemas que não chegam, se ele me traz dias tristes porque a saudade vem... Eu simplesmente decidi viver, porque sou um Coração e nasci para isso. É essa a minha vocação.
Você fecha as portas desse reino para as ilusões porque teme o amor. O amor que você procura em todos esses príncipes sapos que são só um lado bom e um lado ruim na mesma pessoa. Porque você acha que o amor se procura, não é?
Cinder: E quando se acha, encontramos o “final feliz”, o maior tesouro da Helgolândia.
Coração: Os finais não são felizes, porque acabam. E felicidade não é fim, nem começo, nem meio. É só um dia de sol, que você coloca as mágoas para secar.
Eu sei que o Medo e você fizeram milhões de estratégias para encontrar o amor. O sarcasmo de construir guilhotinas e brejos só poderia vir da cabeça dele...
Cinder: Já chega de ironias, senhor Coração sabido... Continuarei com o meu conselheiro e aguarde a minha revolução. A Helgolândia vai mudar, e tenho dito...
Coração: Pois bem Vossa Alteza... Agora, anota essa aí no seu protocolo de medidas revolucionárias: o grande problema da prudência do seu conselheiro Medo é que ele não consegue enxergar que as ilusões invadem esse reino por um motivo só! O amor, não se procura. O amor acontece.
Por hoje é só, Vossa Alteza às vezes me cansa... Vamos Bobo, chega de questionar a autoridade da nossa princesa...

E o Coração, que era impulsivo demais, se fartou da prudência autoritária da princesa e saiu batendo as portas do Castelo principal da Helgolândia.
Cinderhelga olhou na ante-sala do Hall principal do Castelo e encontrou o conselheiro Medo fazendo planos estratégicos para a revolução que em breve aconteceria. Depois olhou pelas janelas da Helgolândia... Chovia torrencialmente. Era um dia triste.
Ela colocou um jazz para tocar e foi correr alguns quarteirões. Porque as palavras daquele Coração incomodavam bastante...

terça-feira, abril 25, 2006

sobre o sol...

Essa luz amarela que invade o quarto, roubando toda a minha concentração. É o espetáculo majestoso de mais um sol que se põem. Para este dia que se vai assim, trancado neste quarto, que são mais livros do que poesia.
Mas neste instante amarelo de profunda respiração, deu tempo para não pensar em nada. Passei o dia todo tentando saber mais do que podia. Mas que esqueci que tudo o que é sábio e grande nesta vida, são pequenos momentos, deste jeito, que nos levam a tarde e reticências...
Respirei no meio dessa confusão de amadurecer sem endurecer, todo dia, um pouquinho. E fui feliz no minuto assim.Amarelo que foi ficando rosa até escurecer. E pedi para esse céu de estrelas, um pouco dessa fé, que fica neste céu aqui de dentro e que uns tempos para cá deu para nublar...

domingo, abril 23, 2006

Vinho

"Esse papo seu tá qualquer coisa, você já esta pra lá de Marraqueshhhhhhhhhhhh
Mexe qualquer coisa, dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe..."
(Qualquer coisa - Caetano Veloso)

sexta-feira, abril 21, 2006

Injustiça

Se a boca cala, é porque sente que os gritos são como um assovio, que nada ou muito pouco conseguem protestar. Porque não há razão, quando aquilo que se impõem é só a força bruta e nada mais. Do que é hierárquico e injusto. Porque não foi institucionalizado no respeito. E é desse desrespeito caricato, que nos acostumamos a sobreviver, para ler as próximas manchetes dos jornais.Que vem logo no dia seguinte. É do desrespeito assim, legislativo, positivado, socializado e interno. Mas a boca cala e seca, porque não adianta gritar. E talvez a melhor saída para isso tudo, seja aquela porta do próximo aeroporto.
É a boca que seca, a garganta que seca. E os olhos molham, porque ainda conseguem sucumbir ao desrespeito que corta a alma. Para aqueles poucos que escolheram ter um pouco de valor. Ou valores.
Injustiça é dor da alma. Que machuca a honra. Fere a dignidade.
É dor que esse povo não tem.
Ou se tem. Fica escondida no próximo escândalo, na próxima novela que a gente costuma comprar. O circo pelo pão. O pão pelo circo.

sexta-feira, abril 14, 2006

Sem forma

A minha natureza é curiosa e insubordinada. Sempre questionando, sempre questionada. Porque preciso dizer o que acho que as palavras podem dizer. E por isso digo. Digo porque não sei ser, quem não posso ser, e se é preciso falar, ainda que não seja interessante dizer, simplesmente não calo. E eu sempre falo.
Porque sou uma tempestade com trovões. Uma verdadeira chuva de verão. E se é preciso molhar: me encharco. Não sei ser garoa. É na constância daqueles pingos finos que justamente me afogo.
É cotidiano que me mata, todo dia um pouquinho. Porque perdi o cabresto dos meus sonhos e não sei mais.
É a rebeldia de quem nunca se adestra. De quem nasceu sem a forma, ou perdeu a bula.
Porque o que eu tenho de doce, é temperado com canela. Acrescente mel, se quiser me entender.

quinta-feira, abril 13, 2006

Avenida Paulista, sexta feira, 7 de abril de 2006

"Você vai pagar e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia"

(Chico Buarque, "Apesar de você" - trilha sonora de uma demissão devidamente chorada em um ônibus lotado, numa sexta feira injusta)

Mais uma vez

Acho que foi assim: bateu de novo o amor na minha porta. Como sempre, com a mesma irreverência, que vinha logo ali, num sorriso azul. Chegou sorrateiro, com um novo contrato de adesão, com cláusula de “não sofrimento”.
Não tive reação mais sincera que não bater a porta. Deixando o amor, ali do outro lado entregue ao vazio da minha raivosa indiferença. E não adiantaria insistir. Dessa vez, ainda que meu coração surdo, ouvisse com tanto zelo suas propostas, não aceitaria as mesmas ilusões em roupas novas. Tranquei a porta.
Voltou logo no outro dia. Tocou a campainha e saiu correndo. Como não vi que se tratava do amor, quando abri a porta para ver quem era, ele entrou sem eu perceber. Instalou-se logo no sofá da sala. Confortável, como um moleque só.
Irritada como só eu estava, enxotei o amor de vez e disse que não mais voltasse. Sob pena de me encontrar em estado de fúria profundo.
Mas o amor pulou o muro. E foi parar direto no meu jardim. Quando me dei conta, no meu jardim seco e esquecido, havia sim uma outra semente, e não pude resistir. Num suspiro de quem entrega os pontos, aliviei e sucumbi. Reguei com carinho, aquilo que só molhei com raiva.

sábado, abril 01, 2006

(...)

"I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star
In somebody else's sky, but why, why, why
Can't it be, can't it be mine"

(Pearl Jam, Black)

Deixe o menino brincar...

A cada sinal fechado é quase sempre a mesma cena. Realidade incômoda. O medo do assalto, a fragilidade dos nossos sentimentos, a impotência de nossos esforços. A indiferença para a diferença. Nos escondemos atrás dos vidros escurecidos então. Cada vez mais escuros. É melhor não ver. A garganta fecha e o próximo gole de saliva vai ser mais difícil de escorregar. Talvez você compre uma bala, para doar em moedas um futuro para essas crianças sem futuro. Que fazem da faixa de pedestres o novo palco da tristeza. Malabaristas da pobreza humana. A que preço? Das balas mais caras e menos doces que compramos...A cada sinal.
Há quantas os olhos agüentam? Deixe o menino brincar... Por favor, deixe o menino brincar. Brincar.Deixe ele ser palhaço.

domingo, março 26, 2006

Sobrenome projeto

Projeto de limão é uma limonada. Projeto de caminho é uma estrada. Projeto de carinho é cafuné. Projeto de colega é amigo. Projeto de amor é paixão. Projeto de alegria é a felicidade. Projeto de mesada é salário. Projeto de sonho é utopia. Projeto de tristeza é depressão. Projeto de poesia é um soneto. Projeto de música é jazz. Projeto de presente é passado.
Projeto de vida ... é só vivendo.

Mulheres solteiras

Toda mulher solteira é um pouco bruxa, e, isso logo se percebe nessas mandingas praticadas intensamente nos banheiros públicos femininos. O suave polir das armas da sedução, é um ritual de magia intenso, em que se sacramenta o estratégico ajeitar do sutiã, o retoque minucioso do batom e as milhões de formas de se arrumar o fio de cabelo rebelde, que resistiu a mais quente das chapinhas.
É nesse ritual de magia e beleza, que logo se reconhece o poder e a astúcia dessas sábias feiticeiras que investem nos detalhes o sucesso de uma boa conquista.
E quando se pintam, como verdadeiras guerreiras, escondem o rosto da solidão. Porque toda mulher solteira também é uma menina que pede colo.
Toda mulher solteira é uma geladeira com frutas, legumes, verduras, leite desnatado e alguma promessa de vida saudável industrializada. É uma dieta de segunda feira que acaba na terça, quando se decide, com as amigas, que a pizzaria de sempre é o local do encontro para colocar as fofocas do final de semana em dia. Porque toda mulher solteira é cuidado consigo e promessa do que não foi feito. Toda mulher solteira é conselho.
Toda mulher solteira é um sono espaçoso que dorme de um lado da cama para acordar do outro. Toda mulher solteira é uma escova de dentes única na pia, é um sorriso matinal descabelado que logo surge quando se encontra a tampa da privada no lugar certo.
Toda mulher solteira é um coração pendurado no fio de nylon da esperança. Esperando um grande amor que não vem. E criando cores onde não tem.
Porque toda mulher solteira é um amor imaginado. É um poema romântico sem métrica ou destinatário.
Toda mulher solteira é caminho sem mapa. Remédio sem bula. Segredo e não receita.
Toda mulher solteira é uma organização desorganizada, de quem tem tempo demais para si.
De quem tem tempo suficiente para viver. Sem dar nenhuma satisfação.
Toda mulher solteira é a mística da feminilidade experimentada, que se transcreve na busca por si mesma e na riqueza dos detalhes.

segunda-feira, março 13, 2006

Depois (ponto final)

" Um amor assim violento, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento, oceano sem água"
(uma música do Caetano que esqueci o nome, assim como precisei esquecer e seguir)

segunda-feira, março 06, 2006

Um grande amor e um grande time

Nasci corinthiana. Por herança de um avô que mal conheci. Dele só me sobraram as histórias e uma curiosidade louca de ter presenciado um pouquinho da sua existência . Meu pai conta que ele era corinthiano fanático, desses de ir ao estádio, acompanhar o time e tudo mais. E por conta dessas histórias que me acostumei a ouvir, não me lembro da existência de outro time, até meu irmão mais novo nascer. Não se sabe por qual descuido genético, o caçula nasceu são paulino. Desses fanáticos, que driblavam a bola e falavam o nome do zagueiro do tricolor. E não havia São Jorge que o transformasse em corinthiano. O caçula é são paulino.Mas, ainda que o entrave futebolístico se instalasse no coração da minha família, continuei corinthiana, mesmo que fosse só para provocar o menorzinho. Só reconheci paixão no time a primeira vez que vi o Viola marcar um gol e dançar no campo. Achei aquilo o máximo, e, motivo maior não existiria para confirmar minha genética. Aprendi a torcer, só para ver ele dançar no campo a cada gol. Virei assim corinthiana por paixão.Na minha casa mulher não gosta de futebol, é quase uma regra. Minha avó conta que o futebol foi a desgraça que impediu minha tia casar. Segundo ela, a paixão da minha tia pelo Guarani afastou uma série de pretendentes. Uma mulher que gostava de futebol naquela época era uma aberração. Por isso ela não casou, embora continue fiel ao Guarani até os dias de hoje.Mas contrariei as expectativas. Nasci corinthiana fazer o quê?Acontece que por um descuido da paixão, me iludi por um novo moço e por um outro time. É um pouco desse zelo que a feminilidade acaba nos legando. Renunciamos um pouco do nosso espaço para cuidar do coração alheio. E como eu sabia que ele quase enfartava com um jogo do São Paulo, pensei em torcer para o time, numa tentativa frustrada de proteger o meu amado de seus ataques histéricos.Mas a paixão acaba e o amor azeda. O moço foi embora, num dia em que eu me irritei com o seu descaso. Levando sua bandeira e um pedaço do meu coração. Ai veio a tristeza atropelando todas as lembranças. Fiquei mais corinthiana do que nunca! Dessas raivosas que deseja ver o time alheio perder. Só pelo sarcasmo do sentimento que move uma paixão decepada. Sim, levantei bandeiras, tirei a camisa do armário e me redimi. Corinthiana de pele. Não mexam comigo! O amor acabou, a raiva passou, precisava resgatar meu lado corinthiana de pequena.Ontem fui ao estádio, me conciliar com meu time. Pedi perdão silenciosamente por ter pensado em abandoná-lo por uma paixão que passou. E logo que a rede chocou com o gol do Nilmar, vibrei junto e saudei com a fiel o “todo poderoso timão”. Gritei, sofri, vibrei e quase chorei com o gol do empate, marcado ao 2 minutos do final. Foi uma zica. Um balde de água fria... Justo na primeira vez que fui ao estádio!Não importa. Sai do Pacaembú corinthiana novamente. De alma lavada e com o sentimento preenchido. Devota do santo guerreiro e do melhor time do Brasil. E sem medo que as premonições da minha avó se confirmem. Talvez a paixão pelo time afaste a paixão por alguns homens e quem sabe meu fim seja o mesmo da minha tia. Não tem problema. Pois um grande time não se troca por um grande amor. Ainda mais quando seu grande amor também é um grande time.

sexta-feira, março 03, 2006

Como matar um escorpião (ou um escorpiano)

Não sei se a natureza é sábia ou irônica. Mas fato é, que no caso do escorpião esta sabedoria ou ironia desafia a lógica das coisas. Senão vejamos. O escorpião é um bichinho bastante pretencioso. Isto porque, ciente daquela enorme pinça presente em sua bunda, ele usa e abusa do veneno letal e poderoso que tem. Não só quando pica, mas principalmente quando ameaça.
Isto faz com que o bicho se ache imponente diante de todas as coisas. Ninguém mexe com um escorpião... E nada mais óbvio, afinal, quem confiaria em alguém que tem o seu maior trunfo, logo ali no rabo?! Típico de escorpianos, que carregam suas armas, também, nas costas.
Mas esse bicho que de tão pretencioso, ficou vaidoso demais, não soube que a natureza lhe guardou uma boa peça. Que faz, na verdade, uma ótima analogia para os devaneios da vaidade.
Então, esse bichinho poderoso e pretencioso, cheio de si, que chega a ter o ego maior do que pode carregar, prova um pouco do seu veneno logo que vê fogo.
Não se sabe ao certo a explicação, mas para matar um escorpião o que se deve fazer é colocá-lo no meio de uma roda de fogo. Acuado, o bicho não suporta a impotência, coisas típicas de quem tem muita vaidade e ego, e prefere provar do seu veneno letal a se ver literalmente queimado. E morre assim, com a sina de covarde. Como um suicida que não enfrenta os problemas da vida. Como alguém que adora o papel de vítima mas não suporta a idéia das pessoas lhe dizerem isso.
Triste sina que a gente vê por aí, reservada a essas pessoas que têm o ego na lua e acabam muitas vezes sendo bastante covardes.
O bicho do teu signo é o escorpião. O elemento do meu signo é o fogo. Tinhamos armas poderosas em nossas palavras. Por óbvio, um entrave escrito nas estrelas. Uma bela briga financiada pelo zodíaco. Mas eu quis colocar fogo, só para provocar o tamanho do teu ego. Chamei-te vítima, só para sentir sua pretensão. Entendi que seu veneno era letal e mataria qualquer sombra de saudade, de boas lembranças. Mas não imaginei que assistiria a sua covardia, assim, de camarote.

quinta-feira, março 02, 2006

Na frente do mar

Placebo para todas as dores da alma, assim é o mar. Ficar olhando horas a fio o vai e vem de tantas ondas faz repensar a vida, faz acalmar a mente, faz experimentar um pouco de paz. Salgado como a mesma água humana que vem das lágrimas, pensei em todas as coisas ali na frente das ondas. E deixei passar. Desprendi. Deixei levar. Precisava viver. As ondas que vem e vão refletem o movimento absurdo da vida, que as vezes é tão difícil de aceitar. E se encarar humano.
Diante de todas as ondas, daquela imensidão azul, fui pequena como realmente sou. Fui um pedaço de projeto, caminhando por rotas que só eu traço, e desfaço, logo que vem a primeira calmaria. Porque sou inquieta e inconstante diante de toda a dinâmica da vida. Por isso me entrego nos sentidos e sou assim, intensidade.
Mas ali, na frente do mar, sou um projeto pequeno diante do infinito de todo esse azul. Precisava entender o que havia de pequeno em mim. Então deixei ir. Para aceitar, o vazio de tudo aquilo que não tem sentido, mas que ganha beleza e força, assim, na frente do mar.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

In the name of love

Não preciso nem confessar que me desfiz em lágrimas depois de ver o Bono tocar “In the name of love (Pride)” e finalizar, ali no telão, com a Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Uma ironia, um tapa na cara, um orgasmo múltiplo de sinapse após um estupro craniano, ou ainda, o que porcamente se descreveria como algo que “até arrepia”. Porque as palavras sempre são insuficientes para descrever um sentimento. Chorei. Chorei pela verdade bruta que escancara aquilo que nós temos de demasiado humano: orgulho. Quantas atrocidades serão justificadas em nome do amor ? Essas atrocidades públicas e particulares que acontecem a todo momento. Bono está certo. Escreveremos leis, convenções, tratados de paz, inventaremos direitos, conceberemos garantias... Mas justificaremos, ainda sim, toda essa barbárie organizada, assistida passivamente e aplacada na nossa impotência, em nome do amor. Quantas crianças serão mutiladas física ou psicologicamente, terão o futuro confiscado, e viverão no silêncio que sobrevem a dor? Essas crianças que andam pelos morros, vestidas de soldados de uma guerra civil explicita, mas que ninguém vê. Essas crianças que páram os sinais das grandes avenidas, sinalizando a triste multiplicação da miséria que continua num futuro sem explicação, sem projetos. Essas crianças tão cheias de direitos, acolhidas em um berço de espinhos chamado FEBEM. Essas crianças que conheceram muito cedo o preço de não poder brincar.Problema que o direito não resolve, porque esse amor, em que todos nós nos justificamos, não será nunca institucionalizado.Em nome do amor, assinamos nosso orgulho, assim, na terceira pessoa, para não dizer que é com a gente, para não ver aquilo que não se quer ver. E quando se vê, tem alguém logo ali, promovendo a miséria do mundo, em meio a luzes muito caras, gritando em boa voz, tudo aquilo que se faz em nome do amor.Obrigada, Sr. Bono.

sábado, fevereiro 18, 2006

Amigos

É quase um céu cheio de estrelas onde não importam as noites nubladas, porque quando se vê, é quase como se sempre estivessem ali. E não importa quanto o tempo passe ou as despedidas. O reencontro é sempre como se fosse ontem... Então deixa ir. Porque o melhor é sempre ver voltar. E ainda que se tenha mudado tanto, nada mudou, no mesmo abraço. E na mesma cerveja, em que agente divide um pouco da vida. São momentos raros, que preenchem as melhores lembranças. Na mesma caixa de bombons, divida justamente, com algumas lágrimas, daquilo que um dia machucou. São os melhores ombros, quando o mundo fica dificil demais.Pesado demais. São um céu de estrelas, que ainda que não se veja em noites nubladas, nos iluminam e nos guiam. Para respirar fundo e poder ser aquilo que a gente realmente é. E sempre raros... seletos e raros.