sexta-feira, maio 17, 2013

Fogo na floresta


A voz veio alta, grave, retumbando por entre as frestas dos barracos, escapando pelas escadas apertadas do morro. Rapidamente, o céu foi pretejando de fumaça e o emaranhado de fios e pipas abandonadas no poste foram se escondendo na névoa e naquele ar pesado. “Fogo! Fogo!” gritava o Seu Zé, dono do bar mais popular da comunidade. Ele descia as escadas estreitas aos berros e às vezes, quando não aguentava mais, acabava encostando uma das mãos em qualquer poste, deixando a cabeça tombar, involuntária, pelos pulmões que pediam arrego. As tiras da sandália já gasta dançavam na sola, fazendo com que o velho Zé cambaleasse morro abaixo, como um bêbado louco que incansável insistia “Fogo! Saiam que é fogo!”.
Mas fogo na favela é bala. Toque de recolher. Porque se tem bala no ar, ninguém sai, apenas se esconde no umbigo do próprio barraco, até que a tropa da polícia passe e, depois da sua truculência, deixe um rastro de vermelho para quem fica: chorar. Em silêncio. E assim, os gritos do Seu Zé, naquele momento onde ainda não se ouvia o fogo crepitar, faziam apenas o efeito contrário, empurrando os moradores para suas casas. Seu Zé gritava mais alto, até a voz esganiçar, em desespero. Ele, que descia o morro só com a roupa do corpo, deixando para trás até a garrafa de whisky importada vinda de um contrabando. Filha única, de mãe solteira. Como havia tantas outras ali, que ele não poderia salvar.
Mas Raquel, que também nunca soube o nome do verdadeiro pai, colocou os olhos para fora da janela do barraco e quando viu o velho afoito, concluiu na simplicidade dos seus cinco anos, que aquilo não poderia ser tiro de polícia, nem de traficante. Aquilo era fogo e criança não podia chegar perto. A mãe já havia saído muito cedo para o serviço e Raquel foi para o barraco do vizinho, onde ficavam os cinco filhos do seu Adilson e dona Jucileide.
Dona Jucileide entendeu rápido que a favela estava em chamas e antes de alinhar os filhos para correr, pegou a televisão no lombo e saiu gritando “Fogo! Fogo! Saiam que é fogo!”. Os meninos e Raquel acompanharam a mulher, cada qual com os olhos assustados, levando nas mãos um brinquedo velho.
Aos poucos, a fumaça foi tomando corpo deixando o morro mais cego e sem ar. Os moradores começaram a sair de suas casas com tudo o que cabia nos ombros, nas mãos e nas costas. Alguns se organizaram, em uma espécie de força tarefa, tentando salvar sofás e geladeiras, mas o fogo avançava voraz, comendo os parcos bens daqueles que não tinham quase nada, sem piedade.
Os gritos de “fogo” foram contaminando todas as vielas do morro. Em meio às labaredas, o povo corria, de um lado para o outro, tentando salvar o que não tinha, antes mesmo dos bombeiros e da polícia chegar. É claro que isso ninguém sabe, ninguém viu, mas no meio do corre corre, o que era de um virou do outro, fosse comida, fosse eletrodoméstico. Quando a favela ardia, a cobiça gelava, e o que um queria ter, já era do outro, sem saber.
A notícia do incêndio também se alastrou pela TV e Mara, que esfregava o chão de uma casa granfina do outro lado da cidade, ao ouvir o nome da favela, deu um salto em desespero “Raquel, minha filha!”. Pediu à patroa que pudesse ir ver o que estava acontecendo. A patroa, sem tirar os olhos do computador, apenas disse aquela moça negra de vinte e poucos anos: “Vai, mas volta logo, pois ainda tem uma pilha de roupa para passar...”.
Eram três conduções para chegar em casa e como não havia tempo, Mara gastou todo o dinheiro que tinha em um táxi. Entrou no carro chorando e apenas pediu para o taxista correr.
Quando chegou na entrada da favela, mal dava para passar, tamanha a confusão de polícia, bombeiros e moradores tentando de alguma maneira combater o fogo. Mara aos prantos, rompeu o cordão de isolamento formado por aqueles homens fardados e correu com toda a força que tinha em direção ao seu barraco.
Quando chegou, o barraco de madeira velha, estava meio tombado, mas longe das chamas. Entrou, vasculhou e não encontrou Raquel. Saiu novamente para a rua, meio atônita, e quando olhou para o lado, percebeu que até a velha árvore ainda estava lá. Em seus galhos, um pássaro ia e voltava, num voo rasante e rápido, como quem quer fugir e não pode, para longe de toda aquela fumaça. Mara olhou com mais atenção e viu o ninho com os filhotes piando. A mãe que dava os voos rasantes parecia não saber o que fazer.
O policial veio acudir, mas ainda que pudesse ela não voaria para longe. A casa que fica, no coração não queima e Mara se manteve estática com os joelhos cravados no chão de terra, chorando.
No fundo da viela, dona Jucileide veio com Raquel no colo e os outro cinco filhos juntos, todos apinhados. Gritou pelo nome de Mara que correu em direção à filha até abraça-la forte. Seu Zé vinha logo atrás, pedindo ao policial que lhe deixasse subir para pegar sua última garrafa de whisky importado.
Quando a polícia e os bombeiros chegaram na favela em chamas, o caminhão da construtora e os galões de gasolina vazios já estavam longe dali. Quando a cidade precisava crescer e o progresso chegar, não tinha outro remédio ou outra receita, ateava-se fogo na floresta. E os pássaros que se recusavam a deixar o ninho, morriam ali, sem a resistência necessária para nos lembrar que ainda somos todos bichos.

terça-feira, dezembro 11, 2012

Olhos

Era o começo de uma noite extremamente quente. As luzes, todas, que iluminavam a avenida, deixavam-na com um aspecto de um forno elétrico onde fervilhavam milhares de pessoas.  Milhares de famílias felizes que vinham ali, nesta época do ano, admirar os enfeites coloridos e brilhantes da Avenida Paulista.
Quando atravessou, com o chinelo maior que os pés e o short maior que o corpo, não me surpreendeu. Afinal, são comuns esses meninos que engraxam sapatos por lá. Cor da pele preta, camisa surrada e no lugar do caixote, trazia inúmeros enfeites piscantes pendurados junto ao corpo, desses vendem aos montes na Rua Vinte Cinco de Março. Gritava qualquer coisa, oferecendo seus produtos a um preço mísero. Fazia paisagem, o pequeno menino piscante.

Quando o sinal fechou e a família toda atravessou. A filha segurava a mão da mãe. O filho vinha agarrado ao pai. Máquina fotográfica em punho e todos sorrindo, maravilhados diante dos ursos enormes que cantarolavam “Merry Christmas” diante dos incontáveis prédios daquele paraíso artificial.

A atenção do menino junto ao pai então se desviou para o outro menino. Aquele que piscava e oferecia as luzinhas. Ele então apontou e na sequencia olhou o pai, com olhos redondos de menino. O outro, se aproximou piscante, até que de modo sorrateiro. Parou de gritar os preços e com olhos redondos, também olhou o pai.

O pai, coagido pelo inferno do consumo em uma noite quente feito aquela, tentou ignorar. Mas o filho, insistentemente puxou-lhe a blusa dizendo imperativo “eu quero”. O outro, que não podia cometer tal insistência permaneceu parado e estendeu ao pai um bastão colorido que brilhava.  O pai ficou sem jeito e ralhou com o filho, que por sua vez, baixou os olhos inconsoláveis. O menino recolheu o bastão colorido rapidamente e da mesma forma baixou os olhos inconsoláveis.

Peguei a carteira em um ato desesperado. Queria comprar o bastão colorido de um e entregar ao outro, a força mesmo. Sem a razão da paternidade. Mas a família feliz sumiu diante da multidão e o menino com seus bastões coloridos não demorou a voltar a gritar seus preços.

Olhei os olhos do papai noel gigante. Estáticos, vítreos, como o de uma estátua deveria ser. Pensei se poderia olhar. E se pudesse ver, o que faria? Porque eram olhos iguais, de meninos que não deveriam ser diferentes. Me perguntei se haveria outro jeito de desejar feliz natal.

sábado, agosto 04, 2012

Brinquedo


Não. Eu não sabia. E justamente por não saber, me encolhi no banco do fundo do carro e chorei, quando minha mãe me disse: “Manuela, sua professora veio conversar comigo hoje. O que você tem minha filha? Ela me disse que você não brinca no mais no recreio. Fica somente olhando o pátio das meninas mais velhas...”.

Eu não soube responder à minha mãe o porquê, mas de fato acontecia. Eu não sabia se alguém me via... Quando tocava o sinal do recreio, eu simplesmente corria para um canto, atrás da folhagem, que dava acesso à grade e ao pátio onde ficavam as crianças mais velhas. Meus coleguinhas gostavam mesmo é do insosso tanque de areia. Eu olhava para ele e não conseguia sequer mais ver um castelo. Então eu ia ao meu lugar secreto, às vezes para ficar disputando espaço com as lagartas que devoravam o pobre arbusto, e ficava ali por horas admirando.

A minha obsessão ficava logo à frente do gradil, bem diante dos meus pequenos olhos. Uma fila de pneus coloridos em tons pastéis, enterrados no chão, formando uma fila de arcos, pequenos, médios e grandes. Ali ficavam somente as crianças mais velhas, que até então eram as únicas autorizadas a brincar naquele espaço. O meu objeto de desejo era chamado de pulapula.

 A brincadeira consistia mais ou menos no seguinte: apoiar as palmas sobre os pneus, pegar um impulso, esticar as pernas bem firmes no ar e chegar ao outro lado. Até completar a fila. Era, para mim, uma dança, onde as meninas todas se enfileiravam e pulavam inúmeras vezes a mesma sequencia de pneus, até o sinal tocar.

Eu quase podia ver a cena em câmera lenta. Existia uma menina, chamada Juliana, que era a mais rápida de todas. Antes de pular o primeiro pneu, que era o mais alto, Juliana se concentrava. Respirava fundo. Colocava as duas mãos, perfeitamente paralelas, e então dava um impulso. Suas pernas estendiam no ar com tanta leveza e ao mesmo tempo com tanta firmeza. Suas tranças, as duas, voavam uma para cada lado e ela seguia no mesmo ritmo, até chegar o final da fila para depois bater palmas para si e comemorar. As outras meninas vibravam com a rapidez de Juliana e eu sonhava ser ela, quase todos os dias.

Quase todos os dias, até o dia em que bateu o sinal. Juliana iria saltar pela última vez. Eu queria ver. Do outro lado eu já ensaiava os passos, para fazer igual, o dia em que meu dia chegasse. Eu queria ter a mesma beleza dela, queria fazer exatamente como ela, nos pneus. Então resolvi arriscar.

A professora deu minha falta. Rodou a escola inteira gritando meu nome. Eu conseguia ouvi-la, mas não queria sair dali. Meu esconderijo. Até que ela me achou. Me deu uma enorme bronca por não retornar a sala de aula no horário correto. Eu permaneci em silêncio até chegar na sala. Mas não imaginava que ela iria chamar meus pais.

Eu apenas não sabia. Não sabia por que aquilo acontecia. Mas eu precisava ir até lá, estar até lá, todos os dias, atrás do gradil. Às vezes, quando as meninas não estavam, eu apenas ficava olhando os pneus coloridos, enfileirados, traçando minha estratégia para pular. Todos os cinco. Eu já treinava em meus pneus imaginários. Já pensava o dia em que fossem todos meus. E eu, primeiramente, colocaria as mãos, paralelas e saltaria ao ar, fazendo com que meus cabelos voassem, até estender as pernas, firmes e leves, lá no alto. Quando chegasse ao chão, a areia quase não voaria. Pois seria como pousar, com a mesma leveza em que fazem os pássaros.

Mas a professora percebeu. Minha mãe percebeu. Eu não entendia o que havia de errado. Quando é que a gente começa achar o estranho, normal. Mas era esse o processo. E eu apenas me rendia.

Aos poucos comecei a bolar o plano perfeito. Seria na hora da saída. Quando batia o último sinal, não havia mais pátios separados: crianças mais velhas tinham livre acesso ao pátio das crianças mais novas. Era a hora. Exatamente nessa hora. Eu burlaria os olhares desconfiados das professoras que nos vigiavam no pátio e iria de encontro aos meus pneus.

Um dia deu certo. Porque tinha que dar. Eu já tinha superado a minha fase platônica, já tinha em mim, todos os atributos de sedução. Eu tinha até tranças, como as da Juliana, para pular os pneus como ela. Eu seria, talvez, mais do que ela. Eu teria quase a mesma beleza que até as meninas tinham, quando isso lhes acontecia.

Cheguei ao meu território proibido. Minhas pernas tremiam. Minha respiração ofegante e meu coração disparado. Olhei para os pneus e pensei “são meus” e enrolei as tranças, com um olhar quase doce, para todos eles. Porque aquela certeza era minha e era tão minha que eu preferia que eles não soubessem.  Eu preferia que aqueles pneus todos não soubessem, o quanto eu já havia feito por eles, precisava parecer que era fácil, que era leve, que não doía.

Encaixei as duas mãos, paralelamente, em perfeição. Era a minha chance. Os pneus eram bem maiores do que eu. Bem maiores que as minhas pernas. Eu saltei ao ar. Minhas tranças voaram como tinha de ser. E eu me senti a menina mais bonita do colégio, do mundo, do planeta. Estiquei as pernas no ar, com força e leveza, durou segundos, eu não me importei, cheguei ao chão pela primeira vez depois do primeiro pneu, tão feliz. Eu estava tão feliz. Encaixei minhas mãos e pulei o outro. E o outro. E ...

A professora surgiu gritando, lá do fundo do pátio. Minha mãe vinha logo em seguida. Faltava o último pneu. Eu estava em estado de graça. Achando que já tudo podia. Com a certeza que as ilusões sempre nos proporcionam. Porque a gente acha que é nosso? Porque a gente chama de “meu” e porque constrói todas as certezas no ar, quando na verdade, é a mais pura verdade e a mais pura incerteza da vida? Porque a gente mora nosso corpo no outro? Porque a felicidade não cresce em um terreno baldio? Em um tanque de areia insosso?

A professora estava furiosa. Era o último pneu da fila. Eu encaixei minhas mãos afoitas, dessa vez, eu pulei com tanta força que fui diretamente com o queixo no chão.

A minha mãe gritou esbaforida. Eu fechei os olhos e fiquei algum tempo ainda sobre o chão. Sentindo estilhaçar como vidro fino, a minha mais linda certeza do mundo. Quando levantei minha mãe estava pálida me vendo no chão. A professora não sabia o que dizer. Quando me levantei, senti  o líquido quente escorrer diretamente do meu queixo, pingando sobre a minha camiseta. As tranças já desfeitas. Quando vi que era vermelho, chorei.

Minha mãe me levou direto para o hospital. A professora continuava sem saber o que dizer, numa mistura de raiva e culpa, diante de sua negligência. Foram três pontos. Falsos.

Eu só pensava nos pneus.  Enfileirados. Eu pensava nas minhas tranças voando no ar, no dia em que me senti a menina mais bonita...

Não, eu não sabia. Mas foi ali, naquele dia, a primeira vez em que me apaixonei.
















quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Frestas da realidade

Alguns livros tem alma. Alguns escritores me deixam sem fôlego e fazem cair dos olhos uma chuva de verão. Marçal Aquino é assim.


"Tem sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schiamberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada de monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos.Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia as frestas da realidade. Só assim conseguem se entregar por inteiro àquilo que consagram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vedado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.
Eu chamo de amor."


("Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios", Marçal Aquino)

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Sem afeto (eu nunca te prometi nada)

Se for para ser sem afeto,
Por favor:
Procure as cabras,
Procure as putas,
Procure as mãos,
Procure a solidão.
Essa mesma de outros buracos onde você também se enfia.
De um desejo que em si, por si, se acaba. E se consome.
Sem vínculos e sem medo.
Então não se prometa.Sequer se comprometa.
Em gestos ou palavras, ainda quentes e sussurradas ao pé do ouvido.
Mas, por favor:
Se for para ser sem afeto,
Só não procure,
Passe reto,
Do coração de qualquer mulher.

domingo, agosto 21, 2011

Hell (o inferno somos nós mesmos)


A tarde ia pela janela. Meus olhos não se cansavam de ver prédios. Prédios e mais prédios, incessante paisagem. No banco de trás, um passageiro mascava chicletes no mesmo ritmo de um ponteiro de relógio. Eu tentava ler um livro em vão, mas o calor tornava o ar pesado demais e minha concentração desistia a cada vez que meu vizinho abria a boca. O som vicioso da saliva rodando na boca do moço se sobressaia ao som da rua. Fechei o livro e deixei meus pensamentos se perderem naquela paisagem cinza, naturalmente urbana. Foi no ponto seguinte que ela subiu. Lembro-me de ter parado para prestar a atenção nela quando sorriu em agradecimento ao cobrador que lhe devolvia o troco da passagem. Ela tinha um sorriso muito bonito, claro no rosto, um nariz fino e os olhos bem pequenos. Sua pele era branca a ponto de serem visíveis algumas sardas e, neste detalhe, apesar das roupas sérias, reconhecia nela um ar de menina. Seus cabelos eram castanhos, levemente aloirados e suavemente compridos. Eram tão finos que lamentei não poder tocá-los, pois pareciam extremamente macios. Ela tinha os seios pequenos, os quadris fartos e as pernas absolutamente grossas, o que, naturalmente prendeu meu olhar, antes abandonado na janela. Do final da saia, que ficava bem no início do joelho, até o tornozelo suas pernas eram deliciosamente grossas.
Não queria que ela me percebesse, mas ao mesmo tempo meus olhos já não tinham razão. Eles ficavam ali estáticos sobre aquelas pernas cobertas por uma fina meia calça preta. Ela notou que eu lhe grudara as retinas e, como havia um lugar vago ao meu lado, perdi a vergonha e cheguei a me afastar induzindo que ali tinha um espaço para ela. Mas ela desviou o olhar e sentou-se ao lado de uma senhora.
Logo puxou conversa e pude ver que ela era bastante espontânea. Parecia muito simpática e sorridente. Eu, como só consegui vê-la de costas, ficava feliz quando ela me presenteava com um perfil. Podia ver seu nariz fino, certeiro, e, por sorte, do banco onde estava, tinha uma vista quase privilegiada de seu grosso tornozelo. Ela falava com tanta certeza sobre a vida e sobre os fatos que me curvei levemente para saber o que tanto dizia. Havia muita sinceridade em suas palavras e às vezes constrangia a própria senhora com tantas perguntas. Ela parecia engraçada o que me fez simpatizar com sua figura, mas ao mesmo tempo, sem muita certeza, me pareceu alguém um pouco instável.
Quando ela se levantou, o ônibus já havia cumprido metade de seu percurso. Me dei conta de que meu ponto havia ficado para trás há tempos, quando ela finalmente se despediu da senhora lhe dizendo seu nome: Helga. Eu, ainda hipnotizado em suas pernas suntuosas e roliças pensei: deve vir de "hell". Aquela mulher tornava o calor o meu inferno. Aquelas pernas, aquele jeito, tão sincero, tão espontâneo. Aquele pecado de meias pretas tão comportadas. Aquela inquietude, meio menina, meio mulher. Aquele olhar pequeno e incontido. Aquele dúbio. Aquele misterioso nariz fino. Aquele silêncio em meio aos meus pensamentos curiosos, que se despediam sem, ao menos, conhecê-la.





quarta-feira, junho 29, 2011

Trabalho


Computador


Com puta dor


Dor


Computa a dor


Multiplica o ardor


Computador


Dor


Puta dor


Computa a dor


Computador



sexta-feira, junho 10, 2011

Desobediente


Certo dia, quando eu ainda era bem pequena, minha mãe apareceu com um pacote branco enrolado em um laço de fita cor de rosa. Como não era de dar presentes fora de hora, me espantei com aquela atitude da minha mãe. Mas ela me confortou rápido, pedindo para que eu o abrisse. Desembrulhei o pacote sem pensar muito e quando me deparei com um pequeno caderno cor de rosa, com folhas de coraçãozinho, um ursinho na capa e um pequeno cadeado, eu sorri em deslumbramento. Como toda menina, eu era obcecada por caderninhos e canetinhas e adesivinhos. Vivia com os meus aos montes, incansavelmente. Mas o fato daquele pequeno caderno ter um cadeado logo me intrigou e perguntei para a minha mãe porque a necessidade de mantê-lo trancado. Ela então me explicou que se tratava de um diário, onde eu deveria escrever as coisas mais importantes da minha vida e por se tratarem das coisas mais importantes, elas poderiam ser mantidas em segredo. Como eu não sabia aos nove anos de idade quais eram as coisas mais importantes da minha vida, permaneci dias, no silêncio do meu quarto, angustiada, olhando para aquelas folhas de coraçãozinho, que permaneciam em branco. Era muita coisa escrever sobre as coisas mais importantes da minha vida e de fato eu me dei conta, ali, que eu não sabia quais eram.


Meus irmãos logo perceberam que eu andava estranha. Uma certa hora do dia, me fechava no quarto e ficava um bom tempo lá na frente de um caderno cor de rosa curioso. Quando se deram conta de que no pequeno caderno havia um cadeado, perceberam que não se tratava de um caderno comum e me perguntaram o porquê do caderno secreto. Eu, na esperança de que eles me ajudassem a escrever sobre as coisas mais importantes da minha vida, contei que se tratava de um diário. No entanto, ao saber disso eles riram. Para o meu espanto meus irmãos não me ajudaram em nada com a missão de escritora e a partir desse dia montaram um verdadeiro esquema para furtar o meu diário.


Quando percebi as intenções dos meus irmãos, passei a guardar meu diário no lugar mais secreto que conhecia: dentro do vestido da minha boneca favorita. Não demorou uma semana para que eles descobrissem. Quando pegaram meu diário, ainda em branco, pois eu não sabia quais eram as coisas mais importantes da minha vida, eu fiz um escândalo. E minha mãe, com muita justiça os colocou de castigo por dois dias.


Passados os dois dias, tratei de achar um novo esconderijo: debaixo do colchão da cama dos meus pais. Mas dessa vez pareceu até que foi mais fácil. Não demoraram muito a descobrir e, novamente, eu abri o berreiro.


Enquanto eu procurava novos lugares para esconder meu diário, algo muito estranho me aconteceu. Eu me fechei no quarto naquele dia e escrevi, escrevi desesperadamente e por horas ininterruptas, até sentir os dedos das mãos doerem. Eu não me lembro exatamente o que eu escrevia, mas tinha a sensação de que eram palavras sobre as coisas mais importantes da minha vida. E quando coloquei o ponto final na última frase, eu me senti aliviada.


Não entendia porque naquele dia eu havia conseguido colocar tantas coisas no papel. Quase como um vômito ou uma epifania. Mas imaginei que algo tinha a ver com meus irmãos e suas incansáveis perseguições ao meu diário. O fato deles se esforçarem tanto atrás daquele caderninho, por pura desobediência, de certa forma tornava mais tranquila a minha missão de escrever sobre as coisas mais importantes da minha vida. Sem compreender muito, pensava que as coisas mais importantes da minha vida residiam, talvez, na simples desobediência, ainda que essa desobediência fosse a dos meus irmãos. E era exatamente por ela, que eu escrevia.


Comecei então a pensar sobre os lugares mais escusos para esconder meu diário. Para que o esforço fosse maior e consequentemente meus irmãos buscassem mais. Procurassem mais. Sabia que quanto maior fosse a desobediência, mais coisas eu escreveria.


Certo dia então, sem que eu percebesse, eles acharam meu diário. Seguiram escondidos até a sala e iniciaram a leitura. Meu pai abriu então a porta e deu de cara com os dois. Quando percebeu que liam o meu diário, meu pai ficou tão bravo, mas tão bravo que discursou horas sobre a intimidade das pessoas e o direito à privacidade. Dessa vez, meus irmãos choraram mais do que eu. Mas eu assisti com olhos tristes, finalmente, aquela perseguição acabar.


Eram sete horas de uma noite fria. Da janela do décimo quinto andar eu via o trânsito da Avenida Paulista fechar como uma tempestade. As buzinas gritando raivosas. Quanto tempo se perdia ali? A xícara com um resto café esfriava sobre a mesa. Na tela do computador 1479 e-mails não lidos e o telefone, ao lado, tocando estridente. Atendo. A secretaria na linha me pede para passar a ligação de mais um cliente. Mas eu permaneço estática. Outro e-mail pula em minha tela, dessa vez avisando sobre o vencimento do cartão de crédito. Desvio o olhar rápido e permaneço estática, olhando quase sem ar. Na Avenida em meio aos carros dois meninos correm. Correm desafiando a lentidão do trânsito, a solidão estática daquela noite fria. Eu desligo o telefone sem dizer uma palavra. Pego minha bolsa, vou até o elevador e quando saio só me lembro de ir ao café mais próximo. Eu me sento. Abro a bolsa, pego a caneta e começo a escrever. Escrevo como se fazendo o errado, fizesse o mais certo. Escrevo porque as palavras me brotam como o ar que me falta. Escrevo procurando respirar sobriedade além desse ar poluído. Escrevo e os meninos correm, agora, dentro de mim. Escrevo porque ali residem as coisas mais importantes da minha vida. Escrevo por desobediência.

quinta-feira, junho 02, 2011

Escrevo ou fragmentos

Continuei escrevendo. Em linhas certas e ao mesmo tempo duvidosas. Escrevia pelo meu inconformismo de morrer todos os dias, um pouco, no trânsito estático. Escrevia para respirar alguma sobriedade além desse ar poluído. Escrevia pelos amores que não podia viver e pelos que precisavam morrer. escrevia para desafiar o sono, o cansaço e a minha incompatibilidade com a lógica do relógio. Escrevia o encantamento sobre o papel branco que carrega em si a única liberdade realmente absoluta. Escrevia para me sentir, para não ser mais uma, sonhando na estação do trem. Escrevia para não ser engolida pelo vencimento das minhas contas, para não ser hinotizada com os juros do cartão. Escrevia porque o meu silêncio não me bastava e ao mesmo tempo o meu grito não me continha. Escrevia para seduzir o escuro. escrevia para negar a cegueira conduzida pelo cotidiano. Escrevia pela imortalidade da suadade. Escrevia pela música dos teclados. escrevia pela solidão que vive no óbvio da vida.Escrevia quando me faltava ar. Escrevia porque os músicos tocavam, porque os pintores pintavam e porque os poetas diziam. Escrevia para me desgrudar do óbvio e da preguiça. Escrevia para aquecer a alma, para escutar dentro. Escrevia por meditação. Escrevia pela vontade de perder a vontade, que é sempre uma insensatez. Escrevia pela loucura sufocada nas minhas meias calças. Escrevia porque era maior do que eu: feito fome, libido, sede e vontade de fazer xixi. Escrevia para me libertar dos padrões dos relatórios. Escrevia por me apaixonar pelas palavras. Escrevia por que meus irmãos corriam dentro de mim, pelas coisas mais importantes da vida. Escrevia por desobediência.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Lembranças coloridas para um silêncio em preto e branco


Ela rasga o saquinho de chá com destreza, despejando todo o seu conteúdo na xícara ainda fumegante. O perfume das ervas me invade com a mesma violência do silêncio que se instala sobre o absurdo. Permaneço por alguns longos segundos atônita, enquanto ela gira a colher com naturalidade. Eu giro ao mesmo tempo em mim, nessa certeza de vê-la indo. A todo tempo ela está indo. Se esgotando.
“Vó, esse não é o adoçante”.
Ela olha a xícara e demora algum tempo até finalmente perceber. “É mesmo!” – ela me lança um sorriso sem graça. “Essa minha cabeça. Não está ajudando muito.” Eu digo a ela que tudo bem. Eu digo a ela com a mesma tranqüilidade com que ela me dizia quando eu tinha medo de escuro “Tudo bem”.
“Vem, deixa que eu recolho. Vamos dar um jeito nisso, ok? Você ainda quer o chá de laranja?”. Agora o silêncio parece que também toma conta dela. Até que pouco encorajada, como quem acorda de um sono distante, ela me responde que sim.
Eu mergulho o saquinho de chá em uma nova xícara e despejo a água. Antes que minha tristeza tome conta dela, eu reitero, “Tudo bem Vó. Não tem problema.”
Levanto e vou até a cozinha, dessa vez para buscar a faca do pão que faltou. Quando me sento novamente ela faz sua velha e sábia pergunta “E o namorado?”. Dessa vez eu sorrio sem jeito. “Ahhh Vó... Está muito difícil arrumar um homem nos dias de hoje” e dou uma gargalhada, dessas feitas para desconversar.
“Eu tenho rezado para você. Rezo para todos vocês. Todos os dias, eu começo na sua mãe e depois vem vocês, e, depois vem sua tia e seus primos e depois seu tio e a família dele”. Os nomes dessa lista são necessariamente trocados. E eu a corrijo sutilmente, enquanto ela me diz “É? Não, esse é aquele”.
Eu digo a ela que tudo bem. No fundo, quem nunca teve medo de escuro?
“Que bom que você reza por mim. Vó pede pro santo um bonitão, moreno, forte, barriga tanquinho, rico e, por favor, que não seja gay”. Caímos as duas na risada.
“É difícil arrumar um homem” ela me diz.
“Vó me conta aquela história de como você conheceu o Vô?”. Eu simplesmente adoro essa história e acho que já a ouvi milhões de vezes. Fico extremamente feliz por ela esquecer que me conta, pois sua alegria é como se nunca tivesse me contado. A hora que mais gosto, é quando ela olha de canto e cora, e depois, logo em seguida, abre um sorriso largo, como se fosse hoje. Como se fosse ontem esse tempo curto das lembranças.
“Você sabe, naquele tempo não tinha shopping e internet. As pessoas se conheciam na praça. No domingo, depois da missa. Acabava a missa e todo mundo ia para a praça. Era engraçado, as mulheres rodavam para um lado e os homens para o outro. E assim que a gente flertava. Um dia eu percebi que ele me olhava. Mas ele era tão garboso (vou ao delírio quando ela usa essa palavra) que eu demorei a entender que era comigo. Ele tinha uns olhos azuis. Parecia um artista de cinema...”
O passado é um lugar nada confuso agora. Até mesmo as palavras se encaixam nas frases, sem lhe dar nenhum trabalho. Eu fico com os ouvidos bem abertos, deixando aquela história tomar conta da sala inteira.
Lembro-me de quando era pequena e enquanto ela fritava o bife, eu permanecia debruçada sobre a mesa com a minha caixa de lápis de cor, entretida com algum desenho. A gordura estalava e ela me perguntava o que tanto eu desenhava. Sem perceber, eu lhe contava histórias fabulosas.
Enquanto minha Vó descreve todos os seus suspiros e os olhos do meu avô, seguro minha caixa de lápis de cor com toda força. Eu sigo pintando, com todas as cores que posso, nossas lembranças coloridas. Até que o silêncio nos cubra de preto e branco.
Enquanto ela se vai, eu fico, eu insisto, em todos os momentos.
Não tem problema ter medo de escuro. Tudo bem.

sábado, janeiro 15, 2011

Cinderhelga

(http://www.youtube.com/watch?v=SUP2nEM6yYQ)


"Era uma vez, uma mulher que via um futuro grandioso para cada homem que a tocava. Um dia, ela se tocou."

(Alice Ruiz)

domingo, dezembro 26, 2010

A busca

(“Quem sou eu, sonhando assim e pensando assim. Que solidão dentro de mim. Eu sigo assim sonhando pra viver. Eu continuo a sonhar. Com os pés no chão, não tenho onde pisar” – Nem todas as cores. Miro Dottori )

Ontem, quando dei a última volta na chave para trancar a porta de casa, senti um arrepio estranho percorrer a espinha. Resisti por alguns minutos, achando que se tratava de alguma neurose instantânea. Tenho dessas de vez em quando, portanto simplesmente me ignorei e chamei o elevador. Mas o incômodo persistiu: era como se algo beliscasse a minha memória. Eu não sabia exatamente o que era. Então vasculhei os bolsos da bolsa e depois revistei os da calça. Mas aparentemente estava tudo no lugar: documentos, chaves, carteira, celular, agenda, filtro solar, remédios para dor de cabeça. Meu arsenal anti-tudo que carrego comigo diariamente.
A luz do elevador iluminou o hall e o rangido habitual da porta me convidou a entrar. Não tive coragem. Sabia que estava esquecendo algo. Algo que me parecia muito necessário.
Dei alguns passos para trás. Retrocedi. Eu estava atrasada. Mas e daí? Eu sempre estou não é mesmo? Voltei à porta e rapidamente entrei em casa. Voei direto à gaveta de calcinhas. Escondo de tudo ali. Me escondo até de mim mesma. Revirei. Procurei. E nada ...
Fui então ao canto do armário, onde fica amontoado o ferro e as roupas limpas. Olhei, pesquisei. Mas estava tudo no mesmo lugar. Minha bagunça organizada. Tateei a cama. Desarrumei ainda mais os lençóis. Joguei os travesseiros ao chão. Tudo ali. No mesmo lugar. Corri para a última gaveta da cozinha. A espátula. A toalha tão pouco usada. Uma caixa de fósforos. Tudo igual. A única novidade era essa sensação: de estar esquecendo alguma coisa. De ter perdido algo.
Fui à estante de livros. Com os dedos percorri os títulos, até que involuntariamente, parei. “Felicidade” era o título onde meu dedo restava imóvel. E sobre ele, eu já não tinha nenhuma vontade. Onde é que eu havia esquecido mesmo?
Procurei a felicidade então nas gavetas. As tantas outras por onde não havia estado. E depois nos armários. E até no pó, que eu não imaginava que era tanto, embaixo da cama. Procurei felicidade na euforia, esta que vem de qualquer coisa, de qualquer momento. E por um segundo, achei que ela estava ali, palpável, em algum riso. Procurei felicidade em lugares. Em empregos perfeitos. Em chefes perfeitos. Em homens perfeitos. Na família perfeita. Que eu nunca encontrei. E procurei felicidade em amores. Inclusive, aqueles que eu imaginei. Procurei felicidade na serotonina do meu chocolate. Nas minhas incontáveis doses de cafeína. Na endorfina conquistada depois de corridos os meus cinco quilômetros muito bem suados. Procurei felicidade nas rodas da minha bicicleta. No divã dos meus terapeutas. Nos gostos que o mundo pode ter. Nos cheiros. Procurei felicidade na saudade. No fundo da bolsa. No fundo do bolso. No fundo do túnel. No escuro.
Procurei felicidade em um corpo perfeito. Em cílios curvados e uma pele impecavelmente sem espinhas e sardas. Procurei felicidade além dos meus poucos seios. Além dos meus fartos quadris. Além do que eu tenho de feio e não resiste a nenhum parâmetro de beleza. Procurei felicidade no que evito.
Procurei felicidade em receitas, em dietas, em mandingas.
Procurei felicidade entre moedas. Na multiplicação das invariáveis da economia. Na poupança. No décimo terceiro. E em liquidações.
E procurei felicidade pelos cantos. Até mesmo aquele que você me deu, para eu ficar te esperando. Procurei felicidade nas fotografias. Nos amigos que se foram. No pôr do sol. Incansavelmente eu procurei felicidade nos teus olhos. Na tua música.
E procurei felicidade nas asas do avião que me levava distante para qualquer lugar. Procurei. Farejei. Mapeei. Desvendei. Eu procurei felicidade no prazer. No silêncio. No barulho. No tango. No samba. No jazz. Na rumba. No pop.
Eu procurei felicidade num orgasmo. Numa catarse. E numa epifania.
Eu procurei. E revirei. E procurei mais.
Eu procurei felicidade nas garantias. Na imobilidade. Nas certezas. Até as que eu construí, com fragilidade de verdades imperfeitas. E procurei felicidade sobre o que era imóvel, pouco dinâmico e instável.
Eu procurei felicidade no mapa. No Google. Na lista telefônica. E na coleção de Barsa.
Eu procurei felicidade na dor. E depois na farmácia. Eu procurei felicidade nas ruas, nas esquinas, nas bibliotecas. E procurei até em
alguns livros de direito.
Eu procurei felicidade na bagunça e também na organização. Mas eu não sou nada disso.
Eu procurei felicidade. Com todas as minhas forças.
E me cansei.
Deixei a casa bagunçada. Travei novamente a porta. A luz do elevador iluminou o hall. Como sempre o seu rangido habitual me convidou a entrar. Abri a porta. Entrei. Desci. Tirei o tênis. Depois a meia. E saí, caminhando descalça pelo mundo.
Quero a felicidade que se pisa com os pés.

domingo, dezembro 12, 2010

Meu heterônimo

"Há muito tempo que não escrevo. Tem passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.
Há muito tempo que não só escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me destingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num reverbéro alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave ao fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste e ter a consicência de que, com a minha tristeza, se cruzou agora - visto com o ouvido - o som súbito de eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.
Há muito tempo que não sou eu."

(Fernando Pessoa, O livro do desassossego, 139)

quarta-feira, setembro 22, 2010

Desperto

(“Várias vezes, no decurso da minha vida opressa por circunstâncias, me tem sucedido, quando quero libertar-me de qualquer grupo delas, ver-me subitamente cercado por outras da mesma ordem, como se houvesse definidamente uma inimizade contra mim na teia incerta das coisas.
Arranco do pescoço uma mão que me sufoca. Vejo que na mão, com que a essa arranquei, me veio preso um laço que me caiu no pescoço com o gesto de libertação. Afasto, com cuidado, o laço, e é com as próprias mãos que me quase estrangulo.” – O livro do desassossego/ Fernando Pessoa)


E se despertasse, louco, inquieto,
Como quem lhe tira o sono,
Como quem salga a boca com sede,
E, de repente, lhe tira a luz.
E se despertasse, errado, incerto,
Com a mesma violência do veneno que percorre as veias,
Como quem lhe rouba o pensamento,

E te entrega a eternidade dos minutos.
E se despertasse, feito dor, incômodo,
Uma formiga passeando sobre sua orelha e as mãos agora atadas.

Necessidade de gritar, com a boca fechada.
E se despertasse assim, intenso.

Como febre, soluço ou arrepio.
Haveria de me esquecer, feito guarda-chuva quebrado no canto do armário?



quarta-feira, agosto 18, 2010

João-Bobo

(Tenho o passo marcado/ O rumo traçado sem discussão/ Tenho um encontro marcado com a solidão/ Tenho um pressa danada/ Não moro do lado/Não chamo João/ Não gosto nem digo que não/ É inútil (...)
Vou correndo, vou-me embora/ Faço um bota-fora/ Pega um lenço agita e chora/ Cumpre o seu dever/ Bota força nessa coisas/ Que se a coisa pára/ A gente fica cara a cara/ cara acara cara a cara/ Com o que não quer ver – Chico Buarque “Cara a Cara”)


Ainda muito pequena, ela não entendia porque razão aquilo poderia ser chamado de brinquedo. Com um sorriso plástico, inflado, o João-Bobo se debatia de um lado para o outro, sem protestar. Por isso a menina nunca soube se no final das contas ele era feito para bater ou para apanhar. Fato é, que mesmo quando caía, o João-Bobo logo se levantava. Inútil. Indo e vindo de um lado para o outro, levantando e caindo sobre o mesmo eixo. Como se levitasse entre a persistência e a idiotice. Como se persistisse entre a teimosia e o cansaço.
Que graça tinha em ver o João-Bobo cair? Ela se perguntava. Que brincadeira mais estúpida podia ser aquela? Mas quando tinha cinco anos o João-Bobo furou, e a menina não chorou para sua mãe comprar outro, pois já era grande.
Sabia que é possível chorar ser deixar cair lágrimas? Não é fácil, mas é treino. Você desvia o olhar para um ponto fixo qualquer e se distraí. Se os olhos insistem em marejar, você apenas fecha as pálpebras lentamente, até anestesiar. Se a garganta fechar, você junta um pouco de saliva e engole rápido. Não é fácil, mas é treino.
Ela aprendeu a fazer isso, depois de um dia quando já mulher, ficou envergonhada pelas pessoas que a viam chorar no trem. Às vezes ela chorava, quando tudo por dentro indignava. Às vezes ela chorava, quando as perguntas não bastavam. Às vezes ela chorava a certeza de ser sempre torta, de ser sempre incorreta, de ser sempre inadequada. Inadequada era uma palavra que se adequava bem a ela. Mas era preciso cair e levantar, todos os dias no mesmo círculo. Com o mesmo sorriso plástico, inútil. Se debatendo de um lado para o outro.
Se ao menos pudesse, a menina engoliria toda a arrogância que lhe embrulhava. Se pudesse, a menina levantaria e faria tudo sem levantar. Se pudesse, se soubesse, ao menos o caminho. Os trilhos do trem reluziam, um ponto fixo, sem chorar.
Aos cinco anos. Aos cinco anos o João-Bobo furou e ela aprendeu a chorar sem lágrimas.
Quem disse que a gente não levanta? Quem disse que a gente sabe qual a diferença entre a idiotice e a persistência? Quem disse que os caminhos não estão sobre o mesmo eixo?
Que brincadeira mais estúpida pode ser esta que a gente insiste em viver?

sexta-feira, junho 18, 2010

"Saramargo"

Desde a primeira vez que abri um livro seu, li tudo com uma certa birra. Na minha cabeça eu permanecia segurando a caneta vermelha da tia Emília, minha professora da segunda série, que fez dos meus textos um borrão, por conta da falta de vírgulas.
E ler aquele homem, que escrevia sem pontos, travessões ou vírgulas, era um desafio à minha infância de dicionário Aurélio. Era uma ofensa ao meu português entalhado em vermelho. Lembrava-me das primeiras lições, logo que aprendi a ler, “a vírgula é o momento em que o texto respira”. Saramago sempre me tirou o fôlego.
E por me deixar assim sem respirar durante frases e frases, apelidei-o de “Saramargo”, especialmente após sua literatura tornar-se obrigatória para o vestibular.
Era estranho. Havia um exercício imenso em entrar naquele texto. Havia uma concentração enorme para atravessar aquelas palavras, entender suas frases, enfim, permanecer sobre as suas páginas.
Quando ganhou o prêmio Nobel, olhei o com mais desdém: como pode ser tão grande, se não sabe usar nem pontos, nem vírgulas?
Mas Saramago escreveu livros para se ler maduro. Quando você estiver pronto para entender que as melhores coisas a serem ditas não precisam de travessão.
Saramago escreveu livros para desconstruir a gramática. As histórias não precisam de pontos para terem voz. Ou para ficarem impressas na sua imaginação. Como se você pudesse, de uma página para outra, simplesmente parar de enxergar.
Aprendi a gostar de Saramago na persistência. Depois de algumas cem páginas, ele acaba te enfeitiçando. Você se prende ao seu ritmo. É simples perceber que os pontos são inúteis. A língua pode dizer, por muitas vezes, por si só.
E o que mais precisa ser dito? Quando abri os jornais pela manhã, havia uma frase, com ponto e com vírgulas. Saramago morreu.
Os livros sobrevivem.
Na estante, acho que guardarei todos. Quero dá-los aos meus filhos e netos. Para que eles saibam, o que ele me ensinou. Todo amor nasce de uma persistência. Árdua. Mas sem pontos. Ou vírgulas.

terça-feira, abril 06, 2010

Guia Prático Para Dar um Pé na Bunda

(“Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu. Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Na saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde.” - Chico Buarque – Trocando em miúdos.)

Não. Acima de tudo eu não acredito que existe manual para as coisas que sentimos. Graças a tudo o que há de bom nessa vida, há colorido além da racionalidade. E entre todos os mistérios que a racionalidade não equaciona, está a difícil tarefa de descobrir, quando afinal o amor acaba. Quando a paixão termina. Porque os sentimentos adormecem, como poças d’água que se formam de repente. E quando se viu, ficou tudo ali parado, estagnado, acabou sem se perceber. Amor acaba. Paixão termina. Que seja eterno enquanto dure.
Mas ainda sim, ainda que seja difícil saber o exato e peculiar momento em que tudo se limita à poças d’água, fico me perguntando se tem um jeito decente de expressar essa verdade tão íntima para o outro. Aquele que sobra. Aquele que fica tentando se achar no reflexo da poça. Como diria meu bom e velho pai, não há jeito bom de dar notícia ruim. Mas há jeitos “menos piores”. Há jeitos e jeitos.
E nesse mundo sem jeito, que eu não me canso de experimentar, ando percebendo que a maioria das pessoas não sabe como terminar um relacionamento. A liquidez das relações favorece, no entanto não poupa o curativo. E há jeito de não machucar? Acho que não... Mas há jeitos de se fazer com que a raiva conviva com o ressentimento, ao menos, por menos tempo. E de tudo, restem apenas às lembranças, não apenas a ironia.
Se não quiser terminar, ao menos tenha coragem de não começar. Porque no fundo, tudo mesmo se resume aquela lição besta que a Dona Maroca dizia nos áureos tempos de pré-escola “não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você”.
Fiz esse manual queimando neurônios em uma madrugada. Bebendo vinho até São Paulo apagar. E escrevi ele, como uma espécie de prece: que menos gente babaca (especialmente do sexo masculino) resista nesse mundo. Terminem o que vocês fazem tanto esforço para comer, que dizer, começar...
Passo n.º 1: Termine. Diga que acabou. Há muito dizer em não dizer nada. Mas é fato que quando se gosta de alguém, a omissão, o talvez, soa com a equivalência de um sim. É necessário coragem, eu sei. Mas não é menos coragem do que você precisa para ficar pelado na frente de alguém e confessar qualquer espécie de tesão. Dizer que acabou é quase tão importante quanto dizer que começou.
Passo n.º 2: Não transe em menos de 48 horas em que você pensou em terminar com alguém. Cortes brutos ao desejo têm efeitos colaterais dolorosos. Evitar o sexo, acredite, ameniza o sentimento de rejeição, pois ele aparece com um disfarce antecipado.
Passo n.º 3: Não compre presentes, especialmente se o término anteceder datas comemorativas como natal, aniversário, páscoa entre outros. Acredite, terminar em datas comemorativas ou logo após elas, depois de se ter dado um presente, é algo que pode surtar alguém. Sem contar que o presente tende a virar um voodu de sensações desagradáveis.
Passo n.º 4: Evite apresentar para amigos ou família se você tem um leve indício de confusão dentro de você. Envolver terceiros é sempre pior.
Passo n.º 5: Vá com calma. Evite ser brusco. Evite ter uma noite de amor e terminar no dia seguinte. Terminar uma relação é uma náusea por si só, não é preciso mais movimento. É mais difícil, mas pode acreditar é mais saudável. Terminar relacionamentos longos costuma ser mais doloroso e ressentido. Terminar relacionamentos curtos costuma ser mais fácil e mais explosivo. Mas em todos os casos, é fundamental ir com calma. Preparar o terreno.
Passo n.º 6: Não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você.
Passo n.º 7: Você é responsável pelo que cativas. (Será que Exupery terminou algo direito assim como fez com o Pequeno Príncipe?)
Terminar um relacionamento de um jeito, ao menos, honesto, pode não ser nada fácil. Na verdade não evita ressentimentos. Apenas não destrói o respeito. O resto, bem... O resto o tempo cura.
E aos que ficam. Segurando o pé, vendo doer a bunda, sem saber por onde começar. Bem, comecem pela janela: há muita vida lá fora!

domingo, março 28, 2010

Cansaço

(“A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma” – Marina Colassanti – Eu sei, mas não devia”)

Essa aí sou eu. Em dia com o meu atraso. Na companhia da minha solidão. Encobrindo os espaços do meu estômago com angústia. Tentando ver sobre o escuro.
Essa aí sou eu. Cedendo para me poupar. Escapando pela válvula de escape. Amortecendo. Amortizando. Rotineiramente aceitando os limites. Aceitando.
Essa aí sou eu. Engolindo tudo a seco, com um alargador na garganta. Vivendo a indigestão. Brincando com a ironia do mundo. Crucificando a minha própria vontade de ser vítima. Aprendendo a ouvir o meu silêncio.
Essa daí sou eu. Entorpecendo o questionamento. Indo com a maré. Levando com a barriga. Virando a ampulheta. Deixando passar.
Essa aí sou eu. Sentindo a impotência dos sonhos. O apego à cama. A preguiça. O estômago vazio sem fome. A dor sem tempero.
Essa daí sou eu. Sucumbindo. Em cinza. Cansada do cansaço. Com gosto do desgosto. Acostumada.
Essa daí sou eu, acompanhando os minutos da morosidade. Caminhando sem passos.Vendo o dia passar entre um café e outro. Dando peso à leveza. Dando leveza à tristeza.
Essa daí sou eu. Sentada sobre o mesmo círculo que já rodei.
Essa daí sou eu. Sem saber que eu sou.

domingo, janeiro 10, 2010

“Amores Expressos I – fragmentos sobre a esquizofrenia das relações modernas.”

(Tchau. Vai ver se eu estou lá na esquina, devo estar. Já deu minha hora e eu não posso ficar. A lua me chama. A lua me chama. A lua me chama e eu tenho que ir para rua. Lenine – “Hoje eu quero sair só”)

07.12.09. 23h15. “Estava em conflito e fiz prevalecer minha vontade! Ao contrário do que me disse, eu gosto de mensagens no dia seguinte, inclusive pq quero que tenha meu telefone e que saiba que estava um trapo, mas um trapo bem animado hj! Bjs e dorme bem!”

09.12.09. 22h46. “Comprei mais halls de uva... a lembrança que me traz o gosto ameniza minha espera pelo final de semana...quando pretendo te chamar para sair!”
09.12.09. 23h02. “Tá... só não demore muito a aceitar meu convite pq o halls tem açúcar e eu não gostaria de ficar gordo ou diabético.”

09.12.09. 23h10. “Se é só isso mesmo o que espera, me avise que eu como um saco de açúcar e nos vemos hj mesmo... rs...”

10.12.09. 10h17. “Ai, ai... Adoro ser paparicado logo pela manhã... RS... Bjs e um bom dia (com sol) pra vc.”

10.12.09 22h57. “Passei o dia pensando naquele beijo extra doce... Admito que meu dia não passou mais rápido depois dele, mas foi definitivamente mais feliz! Rs...”

11.12.09. 20h33. “Eu que tanto esperei por este bendito fim de semana, agora encontro-me esgotado e preso a esta cadeira infeliz no escritório.O pior é que nem tenho halls de uva para me animar...”

11.12.09. 20h37. “Humpf... Acho que a probabilidade de nos vermos hj é bem remota né?”

11.12.09. 20h39. “Acho que em mais ou menos uma hora..E vc?”

11.12.09. 22h41. “Não tive tanta sorte... Meus problemas se estenderam até há pouco e precisarei de um pouquinho mais do que meia hora. Qual seu endereço?”
13.12.09. 01h57. “Rs... Nunca achei que diria isso, mas minha cama está tão grande hj...”

13.12.09. 23h32. “Voltei mais tarde do que imaginava... Acho que está meio tarde para nos vermos, não? De qquer forma, foi muito bom. Como foi seu dia?”

14.12.09. 01h14. “Cafuné, cafuné, cafuné...rs... E bjs, bjs, bjs.”

14.12.09. 23h15. “ÉÉÉÉÉ...Oi..Hummmm. Tudo bem? Eu quero um cafuné hj...E um pé de cabra para descolar meus ombros de minhas orelhas...”

14.12.09.23h26. “O que vc ta fazendo aí? Vem pra cá e a gente divide um cafuné...”

15.12.09. 02h14. ”Apesar dela me maltratar um montão, eu devia ter ido para a casa dela...Pelo menos eu estaria dormindo abraçadinho agora... É um abraço tão quentinho...”

16.12.09. 00h29. “Não ia mandar msg hj para não me tornar um chato, mas deu uma vontade louca e não pude resistir. Serei breve... Smack!!!”

18.12.09. 03h04. “Promete que vamos nos ver amanhã? Fiquei a semana toda com vontade de dormir abraçado com você... Principalmente pq vc foi a melhor noite de sono que tive nos últimos 15 dias...Como em meu sonho, vc consegue tirar minha cabeça e pensamentos da rotina e transportá-los a um lugar melhor...”

20.12.09. 20h47. “Hummmm.. To meio apertado em meus horários... tem como ser umas nove para não corrermos riscos.”

22.12.09. 01h12. “Cheguei bem sim, obrigado. Não estou muito bem agora que só consegui passagem para as 3 da manhã. Vou trabalhar em frangalhos amanhã. E nem vou ter colo...”

31.12.2009. 22h49. “Com esta mensagem impessoal, porém sincera, quero desejar a todos juntamente com suas famílias e companhias uma belíssima passagem bem como um ótimo ano. Gostaria de escrever para cada um a importância que tiveram não só nesse ano, mas também em todos os futuros, mas, espero ter deixado esta impressão no decorrer de nossa convivência, curta ou longa, profissional ou pessoal. Obrigado a todos pelas ótimas experiências e que no próximo ano sejam ainda melhores. Abraços.”

SILÊNCIO.
CANSAÇO. MUITO CANSAÇO.

“Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado, ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo numa amálgama irreversível. Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no outro, o companheiro no amor. “A satisfação no amor individual não pode ser atingida... sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras”, afirma Erich Fromm – apenas para acrescentar adiante, com tristeza, que em “uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista”.”
(Zygmunt Bauman “Amor Líquido- sobre a fragilidade dos laços humanos”).

domingo, janeiro 03, 2010

Presente de Aniversário

(Ganhei da Silvia. E amei.)

Canção Excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em numeros me embaraço e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida.


(Cecília Meirelles, in "Vaga Música", 1942)