Domingo, Outubro 24, 2010

Amores Portenõs

(“Si desapareció/ Em mi aparecerá/ Creyeron que murió y aqui se nace/ Aquí La vida renace” – Epoca – Gotan Project”
http://www.youtube.com/watch?v=zeJMsW2E6_E&feature=fvsr)


Atrás de uma prateleira cheia de balas, chicletes e alfajores, ele me olha com uma cara nada doce. Vestido inteiro de preto, o estranho rapaz de quase trinta anos parece naturalmente seboso. Uma barba lhe desce em triangulo pelo queixo e entre o lábio inferior e o começo da barba fica um piercing que me dá uma certa aflição e me faz ter a certeza de que se trata de um sujeito de pouca conversa. Mesmo assim eu lanço um sorriso simpático, o qual ele não retribui, e lhe digo “Hola que tal?”. Meu portunhol terrível e arrastado não produz qualquer efeito sobre aquela figura, que me responde ríspido “Que quieres chica?”.
“Puedes trocar mi pesos por monedas?”. Ele chacoalha a cabeça em negativo.
Arredondo os olhos e digo-lhe em tom de dulce de leche: “Pero se no trocares mi pesos por monedas no puedo cambiar lo bus.”
Estou tão orgulhosa do meu portunhol valente, que não me abalo com o seu mau humor. Ele suspira, pega minha nota de cinco pesos e me devolve 3 moedas e um nota de dois pesos. Explico-lhe que eu precisava de pelo menos quatro pesos em moedas para “cambiar el bus”.
Ele suspira novamente deixando claro que eu estava lhe enchendo a paciência, retira as notas de dois pesos da minha mão com força e troca por mais duas moedas de um peso. Eu sorrio agradecida e pergunto “Como tu te llamas?”. Ele me responde em um tom seco “Cesar”. Eu lhe peço um chiclete depois disso e pago em notas para ele possa me devolver mais moedas. Ele percebe e me olha de um jeito sarcástico como quem diz “porque não comprou o chiclete antes?” eu lhe ofereço um e vou embora sorrindo “Gracias”.
Depois daquela calorosa recepção, jurei me vingar do imperador dos doces argentinos. Todos os dias ao passar por aquele estabelecimento colorido e delicioso eu não resistia e gritava “Buenos dias Cesar boludo!”. E ele me saudava “Buenos dias, brasilenã putana!”. “Buenas noches, maricon” e ele rebatia “Buenas noches brasilenã putana”. Eu gargalhava e seguia. Cesar continuava a me olhar a descer pela Rua Florida com o mesmo ar de poucos amigos.
Certo dia, passei por sua loja com a cabeça cheia de pensamentos, arrastando as rodinhas da minha mala. Quando percebeu que era eu, Cesar me olhou com um olhar curioso, esperando pelo primeiro xingamento do dia. Eu então grito sem cerimônias “Adios maricon!”. Mas César não retribui, apenas me pergunta “A donde vas brasilenã?” . Sem quase suspender meu passo, eu lhe digo “para mi casa, Brasil”.
Quando viro o rosto e vejo o sinal fechar, escuto sua voz azeda ao fundo “Casa-te comigo brasilenã? ” e eu lhe respondo sorrindo “Cesar, te amo”.
Entro no taxi e enquanto o taxista acomoda as malas ao fundo, eu acomodo em mim todos aqueles dias de bons ares. Acho que consigo ver Cesar sorrir. E eu igualmente sorrio, sem me perguntar por que a Rua se chama Florida.

3 comentários:

Renato Leonardi disse...

Blog sensacional dessa minha amiga imaginária mais presente!! Parabéns, Helga pelo trabalho!

Jose Rodrigo Rodriguez disse...

Gostei muito deste texto! Sexy!

Blogger disse...

Confesso que consegui ver nitidamente a cena...muito bom! Parabéns