Segunda-feira, Agosto 09, 2010

Amargo

(“Did you forget about me, Mr. Duplicity?/ I hate to bug you in the middle of dinner/ But it was a slap in the face/ How quickly I was replaced/And are you thinking of me when you fuck her?/'Cause the love that you gave, that we made/ Wasn't able to make it enough/For you to be open wide, no/ And every time you speak her name/Does she know how you told me you'd hold me/ Until you died? 'Til you died?/But you're still alive/And I'm here to remind you/Of the mess you left when you went away/It's not fair to deny me/Of the cross I bear that you gave to me/You, you, you oughta know” – Alanis Morrisette, You oughta know)

Naquela noite, quando me sentei em sua mesa, eu estava linda. Não porque havia passado lápis preto na parte debaixo dos olhos. Não porque havia moldado os cílios sobre um curvex. Não porque vestia um vestido curto e bem marcado na cintura. Não porque havia me perfumado, com gotas de lavanda, entre os pulsos e os seios.
Naquela noite eu estava linda, porque estava furiosa.
E como toda mulher, eu tenho uma beleza que rasga, quando fico assim, furiosa. A raiva tampa os buracos da insegurança. Naquele momento eu exalava a mim, por todos os poros. E estava linda. Eu me sentia assim.
Do outro lado da mesa, suas mãos acariciavam as mãos de outra mulher. Mas o gesto foi logo interrompido, assim que puxei a cadeira, irreverente, e me sentei. Pude sentir sua respiração parar naquele momento. O silêncio ansioso de suas narinas, quase uma melodia para a nossa guerra fria. Eu senti sua espinha gelar.
Ela sabia? Será que ela sabia? Ou era eu, a única, que sorria sobre as suas mentiras? Meu sorriso agora alcança as orelhas. Adoro a ironia. Será que eu contaria? Contaria com a riqueza de detalhes as palavras sussurradas no meu ouvido? Contaria sobre o peso do seu corpo junto ao meu? Contaria sobre o suspiro que encerrava o gozo? Contaria? E porque você não me contou?
Ela me oferece um cigarro. Eu aceito. Vamos para outro lado da festa fumar, enquanto seus olhos atônitos denunciam um enorme nervosismo. Você percorre o salão, de um lado ao outro. Eu dou meu primeiro trago. Ela me confessa com os olhos brilhando, que namoram há quatro meses. Eu me lembro que fazia dez dias. Nesse momento, enquanto ela me descreve seu mais novo romance, eu me lembro de você, dormindo na minha cama, há dez dias. Eu me lembro do seu cheiro na minha cama. E me pergunto se você pensava nela? E me pergunto porque você não havia me contado? E sinto nojo.
Acabo o cigarro em silêncio. Só consigo agora ver tudo em vermelho. Ela me oferece um chiclete, eu aceito. Voltamos para mesa em silêncio. A mesa onde você se sentava.
Sua cara assustada é repugnante. Sinto meus melhores sentimentos voarem, minha coragem se desfaz quase como um castelo de areia. Eu sabia que não seria mais, a partir de agora, a mesma.
Eu me levanto, não quero mais ficar. Você me revira o estômago. Eu me levanto, dou um abraço solidário em minha nova amiga. Abro a boca, pego o chiclete e grudo no seu cabelo. E sigo até as escadarias da festa. E vou.
Partindo, eu me sentia linda. Eu estava realmente linda.

3 comentários:

Adriana ♣* disse...

Putz... que situação!
Mas compreendo você perfeitamente...
Por incrível que pareça, estou sozinha há 9 anos e quando vejo esse tipo de história, me desanima ainda mais...
Gostaria de encontrar alguém bacana, mas além de não saber se faz parte do meu carma, também tem a questão da extinção dos homens que valem a pena investir.
Enfim, é mais do que complicado!
Bjs

Yellow disse...

Querida amiga... li esse texto há tempos, mas faltaram palavras pra comentar. Gosto muito muito do seu estilo. Escreve lindo! ;)

Beijos!

Helga disse...

Mi casa es su casa... Venha sempre Yellow! É muito bom ler os recadinhos desse blog... Muito bom mesmo!