Quarta-feira, Maio 06, 2009

A sorrir

Ela veio caminhando vagarosamente em minha direção, a espreita de qualquer reação mais brusca. Era tão pequena e maltrapilha, que ao vê-la não consegui identificar qualquer doçura, ainda que se tratasse de uma menina. Pequena e frágil. Seus olhos eram fundos e tristes. Seus pés pequenos, descalços e sujos. Vestia uma camiseta surrada que lhe servia como vestido e ao notar que eu a observava, escondida no fundo do ônibus e absorvida pelo meu ipod, quis chamar minha atenção. Fiz que não a vi.
Nessa hora eu pensava em você. Sentia rasgando no peito uma saudade de tudo aquilo que não foi. Sofria pelos sonhos abandonados. Enfim, eu desistia.
No entanto, fazia tudo isso sem medo. Eu simplesmente pisava sobre tudo o que doía.
Estava amando me libertar de você. Em cada pequeno detalhe. Por isso havia jogado seu cartão de visitas, seus livros. Deletei seus e-mails, joguei fora seus adesivos, o cd que você me deu de aniversário, apaguei seu telefone, seu endereço e tudo o que me trouxesse de novo a você. Apaguei caminhos. Velei cada lembrança. Chorei.
Naquele dia em especial, tinha planos para me livrar da última coisa que havia sobrado: o pequeno colar de cerâmica que você me deu. Tinha planos de arremessá-lo nos trilhos do metrô. Para ver ele se espatifar no chão e depois ser atropelado. Mas fiquei com medo de me passar por louca e então guardei o colarzinho no fundo da bolsa. Desisti de ir de metrô para o trabalho.
Estava difícil jogar o colar. De certa forma ele persistia pendurado no pescoço da minha esperança. E ela, mais insistente do que a minha sanidade, persistia em te esperar na janela.
Nessa hora eu pensava em você. Mas a pequena menina me interrompeu. Tirei meus fones do ouvido e ela me olhou bem no fundo dos olhos, com um olhar tão direto, que parecia saber onde morava a minha dor. Então ela me disse:
- Tia, compra uma bala?
Mas eu não respondi. Abri a bolsa e tirei o colar. Entreguei-o a pequena menina, que estupefata sorriu de satisfação. Como se nunca tivesse ganhado um presente ela me agradeceu com a alma. Insistiu para que eu ficasse com a bala, mas eu não fui negligente, já lhe devia por ela levar embora minha dor. Eu também lhe agradecia por levar embora minha esperança, e sem crueldade, me retribuir com um sorriso.
Coloquei de volta os fones. Por sorte, ou feliz ironia, tocava Cartola...

“A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida. Fim da tempestade o sol nascerá, fim dessa saudade, hei de ter outro alguém para amar”.

4 comentários:

Marina disse...

Aiaiai, Helga.

Seus textos sempre mexem comigo.
Sempre.

E eu leio e guardo e não consigo nem comentar.

E o engraçado é que, na vida real, ou na realidade que não a virtual, você é do tipo que ri de si mesma e nunca carrega a melancolia dos seus textos.
Ou não?

Um beijo.

Helga disse...

Marinoca, querida!

Tem um amigo que me fala que eu escrevo para fazer terapia. Acho que ele tem um pouco de razão.

O meu eu lírico é depressivo e exibicionista. Desses que escuta "All by myself", chora no banheiro, com as mãos escorrendo dramaticamente pelo azulejo. Se eu sou assim? Bom, eu gosto de rir de mim mesma. Faço isso com uma certa frequência. Acho que o importante é botar para fora, seja da maneira que for, o que te incomoda.

Venha sempre aqui! Comente quando quiser!!

Adoro suas visitas e adoro seu blog tb!

Super beijo!!

Helga

Phil disse...

Sensacional o texto, Helga.
Repito o que eu disse da outra vez: a fluidez dos seus textos dão muito gosto de ler, por mais melancólicos que eles possam ser.

Aliás, o que sua amiga escreveu (e você respondeu) me assusta, pois me lembra demais de mim mesmo.

Bjo

Janaína M. Macedo disse...

Tá aqui mais um texto que eu gostei.
Isso eu chamaria de verdadeira esperança, entrar no clima do Cartola, reconhecer mais uma vitória e, não bastanto, fazer a felicidade do outro. Não é lindo isso? Helga, você me inspira. Estou sentindo que estou voltando a escrever...rs Obrigada.
Com carinho, Janaína.